Sobre beijos, filmes e como percebemos o mundo

Começo hoje com um vídeo. No filme “Liberal Arts”, há uma cena excelente que mostra um pouco sobre como a música pode afetar nossa percepção. Não achei o filme lá essas coisas (está disponível no Netflix, caso você se interesse), mas a cena que eu achei interessante e que tem tudo a ver com o assunto de hoje (e também do post anterior) é essa aí embaixo. Na cena, Jesse escreve uma carta para Zibby dizendo que o CD que ela gravou para ele fez com que a relação dele com a cidade de Nova York mudasse. Então, pule para 1:05 e veja a cena:

 

A mudança na relação de Jesse com Nova York se dá quando se altera a trilha sonora da cidade. Na verdade, a cidade é a mesma, mas sua percepção dela muda. O interessante é que sempre pensamos na percepção como algo estritamente ligado aos sentidos. O exemplo trata de integração de sentidos. Mas, mesmo quando se trata de um único sentido, a percepção não é feita somente pelos órgãos dos sentidos. Não é o olho que vê. O olho capta a informação e o cérebro completa essa informação com outras informações.

Um exemplo: se você tem ou conhece alguém que tem aquelas manchinhas nos olhos, pequenos pontinhos que andam junto com o olhar, já deve ter percebido que, na maior parte do tempo, elas desaparecem. Por que será? Por falta de atenção? Não. Porque o cérebro completa a informação visual como se não houvesse “ruído” na informação. Na audição ocorre a mesma coisa. Muito do que ouvimos é parte o que está no ambiente e parte construção cerebral (falaremos disso também em outra ocasião).

Voltando ao exemplo do filme, temos a integração de dois sentidos (visão e audição), aliados a diferentes emoções. Um dos sentidos continua captando as mesmas informações. Um deles muda e causa alterações no emoção sentida pelo personagem. Foi essa interação entre integração sensorial e emoção que pesquisadores da Alemanha quiseram investigar num estudo inusitado que tem por título “Como a música altera um beijo”. É… Os alemães também amam! Brincadeiras à parte, vamos ao artigo!

Os pesquisadores recrutaram 22 pessoas que assistiam a várias cenas de beijo de filmes, enquanto eram submetidos a ressonância magnética funcional (fMRI)*. Eles viam as cenas (eram 64 cenas diferentes apresentadas aleatoriamente) em três condições diferentes: com música alegre, música triste ou sem música). Os pesquisadores estavam interessados na interação entre três áreas do cérebro durante as duas condições com música: a porção anterior do giro temporal superior (comumente relacionada à integração sensorial de caráter emocional), e a relação entre o giro fusiforme (ligado a reconhecimento facial) e a amígdala (ligada a emoção).

O que os pesquisadores encontraram nesse estudo foi a diferente interligação dessas três estruturas dependendo do estímulo auditivo. Os resultados indicam que a porção anterior do giro temporal superior (aquela da integração sensorial) possui papel importante na modulação do funcionamento das duas outras estruturas. O que isso significa? Significa que, dependendo do tipo de informação que se integra, há influência direta na maneira como as emoções são percebidas pelo cérebro. Ou seja, o que percebemos não é só o que percebemos. É o que percebemos mais a interação entre tudo que foi percebido. E aí eu pergunto: quantas vezes a música certa salvou seu dia?

 

Para ler mais sobre o assunto?

Pehrs, C.; Deserno, L.; Bakels, J.; Schlochtermeier,L.H.; Kappelhoff, H.; Jacobs, A.M.; Fritz, T.H.; Koelsch, S.; Kuchinke, L. How music alters a kiss: superior temporal gyrus controls
fusiform–amygdalar effective connectivity. Scan, v.9, 2014.

Sacks, O. Alucinações musicais. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Sacks, O. O olhar da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

*Para saber sobre fMRI, temos agora uma nova seção, lá em cima, no menu chamada “Vocabulário Científico e Musical”.  Sempre que houver algum termo que necessite de explicação, ele estará lá. Se não estiver, você pode pedir! 🙂

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