Bate-papo, cheesecake e improviso

em

O dia chegou! Depois de longo e tenebroso inverno, o blog volta oficialmente à ativa com post novo! Então, para mudar um pouco as coisas vou começar com um vídeo…

 

O vídeo mostra um rapaz e um senhor se revezando enquanto improvisam ao piano. Em determinado momento, dá para perceber que eles chegam a um nível de entrosamento que permite que um utilize elementos explorados pelo outro anteriormente, não? E assim acontece com a maior parte dos músicos habituados a improvisar. Estabelece-se um diálogo. Um cria uma frase e o outro repete alguns elementos, acrescentando algo novo. Quase dizendo: “entendi o que você disse, concordo e digo mais…”

Bom, independente do seu conhecimento musical, leitor, você já deve ter ouvido alguém comentar ou você mesmo deve ter falado sobre música utilizando a linguagem como metáfora. O fato é que as semelhanças e as diferenças entre a música e a linguagem são assuntos intensamente estudados pelos neurocientistas e por estudiosos tanto da linguística quanto da música. Alguns pesquisadores, como Steven Pinker, consideram a música um acidente evolutivo, algum tipo de brinde -nas palavras dele, um cheesecake evolutivo- que só permaneceu na história da humanidade por sorte, mas não por ser exatamente útil, uma vez que a comunicação por meio da linguagem já existe (voltarei a esse assunto em outra ocasião, mas não dá para concordar com essa visão. Nesse blog, há várias razões para discordar de Pinker! ;)).

Voltando ao vídeo e à improvisação, pode-se considerar que o ato de improvisar em música se aproxima do ato de se comunicar numa conversa, por exemplo. No caso da conversa em uma língua que se domina, temos o domínio da gramática, do vocabulário, e criamos frases livremente com base em regras previamente aprendidas. No caso da música, aprendemos a tocar um instrumento, temos vocabulário melódico, harmônico e sintático. Criamos então, frases a partir desse repertório. Pode-se considerar que tanto uma conversa com seu amigo no boteco quanto a “conversa” do rapaz com o senhor no vídeo são improvisações.

Partindo desse princípio, pesquisadores da Johns Hopkins School of Medicine, nos EUA realizaram um experimento para saber quais seriam as regiões do cérebro recrutadas quando um pianista de jazz dialoga com outro pianista em improvisações melódicas. Os pesquisadores recrutaram 11 pianistas de jazz profissionais para tocar enquanto eram submetidos a ressonância magnética funcional*. Um pianista tocava um teclado enquanto realizava a ressonância e outro ficava em uma sala separada. Os dois ouviam um ao outro e realizavam tarefas de improvisação em que deveriam responder um ao outro.

Como resultados, observou-se que, além de áreas esperadas relacionadas à análise de elementos auditivos rítmicos e harmônicos (Giro temporal inferior direito) e à memória auditiva de curto prazo (Giro temporal superior direito), os pianistas recrutavam, também, regiões do cérebro relacionadas à produção e compreensão de linguagem (áreas de Broca e Wernicke). Esse estudo ressalta o fato de haver um compartilhamento do uso de estruturas cerebrais no processamento de música e linguagem, especialmente no que diz respeito à análise de sintaxe, forma e regras estruturais. Quando se trata de semântica, a história parece ser diferente, tendo música e linguagem efeitos diferentes nos cérebros dos ouvintes/executantes.

Mas, o mais interessante nesse estudo é a semelhança entre o processamento de música e de linguagem. Você já ouviu dizer que aprender música é como aprender uma segunda língua? Pois é… Embora não seja exatamente isso, não se pode dizer que essa frase está completamente errada. Além de ressaltar as semelhanças, o estudo da Johns Hopkins mostra também que há diferenças. Provavelmente, por suas diferenças (e não semelhanças) em relação à linguagem, a música segue sendo realmente importante na vida do ser humano. Aí, eu pergunto: vamos conversar? O cheesecake fica por minha conta! 😉

 

*A ressonância magnética funcional (fMRI) mede os níveis de oxigenação no sangue e, por meio dessa medida, pode-se inferir quais regiões cerebrais estão sendo mais recrutadas durante a tarefa proposta pelos experimentadores.

 

Para ler mais sobre o assunto:

Donnay, G. F.; Rankin, S. K.; Lopez-Gonzalez, M.; Jiradejvong, P.; Limb, C. J. Neural Substrates of Interactive Musical Improvisation: An fMRI Study of ‘Trading Fours’ in Jazz. PLoS ONE, v. 9, 2014.

Berkowitz, A. L. The Improvising Mind – Cognition and creativity in the Musical Moment. Oxford University Press: New York, 2010.

Patel, A. D. Music, Language, and the Brain. Oxford University Press: New York, 2008.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s