A música e a inteligência… Novamente! (ou, por que ainda se acredita no efeito Mozart?)

Você já deve ter ouvido alguém dizer que a música (em especial, a “erudita”) faz com que as pessoas se tornem mais inteligentes. Principalmente entre músicos, essa idéia costuma ser razoavelmente cultivada (por que será?). Mas, será que as descobertas científicas acerca da música nos permitem afirmar isso com tanta propriedade?

Sinto desapontá-lo, mas é claro que não. Eu realmente acredito que a música e o aprendizado de um instrumento trazem uma série de benefícios às pessoas. Benefícios tais que vão desde aspectos rítmicos, de coordenação motora, até melhora de habilidades sociais e visuoespaciais. No entanto, enumerar benefícios em diversos domínios não é a mesma coisa que dizer que a música nos torna mais inteligentes ou mais belos (aos olhos dos outros… Aliás, esse é outro assunto que convém tratar em algum momento). Além disso, nenhuma das pesquisas em neurociência da música sendo realizadas nesse momento poderão afirmar que a música nos torna mais inteligentes. Para explicar esse ponto de uma maneira melhor, vou exemplificar… A imagem a seguir é de uma reportagem que saiu em Portugal sobre um artigo publicado nesse ano por pesquisadores do Canadá.

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Você deve ter visto essa reportagem ser compartilhada por aí… O que acontece é que, apesar de, no corpo do texto, o experimento ser bem descrito, o título engana qualquer leitor, distraído ou atento. Explico. O termo “aumento do desenvolvimento cerebral” é um tanto vago e pode acabar gerando euforia desmedida.

Agora vamos ao artigo original. Os pesquisadores de Montréal realizaram pesquisa com ressonância magnética funcional (fMRI) com músicos que tinham começado sua formação antes dos 7 anos, músicos que começaram sua formação mais tarde e pessoas sem conhecimento musical. Durante a ressonância, os participantes realizavam tarefa que consistia em sincronização de movimento e precisão rítmica. Como resultados, os pesquisadores observaram que o volume de matéria branca no corpo caloso dos indivíduos que tinham iniciado seus estudos na infância era maior quando comparado ao volume dos outros grupos. Até aí, esse estudo mostra o que outros estudos já haviam mostrado, que o volume do corpo caloso, estrutura que conecta os hemisférios esquerdo e direito do cérebro, pode sofrer alterações em função do treino musical. Mesmo assim, afirmar que a alteração é gerada pela quantidade de treino musical dos sujeitos é um pouco difícil.

Explico. Você já deve ter ouvido a expressão “correlação não é a mesma coisa que causalidade”. Se não ouviu, vai ouvir um dia. É a mais pura verdade. Quando se realiza um experimento em que se compara dois grupos com uma medida como a da ressonância magnética funcional, encontra-se um dado correlacional. No caso do estudo em questão, parece haver uma correlação entre a idade em que se iniciou o estudo de algum instrumento e o volume do corpo caloso em sua porção posterior. Mesmo com dados significativos, não se pode afirmar que o treino musical precoce leva ao aumento do corpo caloso. Isso porque, os dois grupos de pessoas eram compostos por adultos, que viveram uma série de outras experiências que não estão ao alcance dos pesquisadores. Portanto, pode ser que a prática musical leve ao aumento do corpo caloso. Mas, pode ser que algum outro contexto relacionado à música leve a esse aumento, não necessariamente o estudo de um instrumento. Ou, ainda, pode ser que os músicos que aprenderam música desde pequenos já tivessem o corpo caloso ligeiramente avantajado antes de iniciar seu estudo musical e por isso tenham sido felizes na escolha…. Enfim, as possibilidades são inúmeras. O que eu gostaria de pontuar era exatamente a prática de tirar conclusões precipitadas de tudo que se lê. Lembrando que uma manchete que diz “Formação musical precoce aumenta desenvolvimento cerebral” é bem mais interessante que “Estudo indica que o estudo precoce pode desenvolver área posterior do corpo caloso”. 😛 Mas, cabe ao leitor bem informado descobrir a verdade por trás da manchete sensacionalista!

E, para descontrair, deixo um vídeo de “ópera para crianças”… Será?

Bom, esse post terá parte II, com resultados de pesquisas mais otimistas que esse… 🙂 Aguardem!

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