Porque eu sou diferente de você. E é bom que seja assim…

As pessoas são cheias de opinião mesmo. E qual seria a graça se todos fossem iguais? Ganha-se muito com a diversidade. É claro que ela também dificulta um pouco a convivência… Um exemplo disso é o gosto musical. É incontável o número de vezes em que eu perdi a paciência com alguém na rua que “elabora” seu carro como um verdadeiro trio elétrico e fica feliz quando todos podem ouvir sua música. É claro que tem quem não goste quando eu canto uma ária de ópera em meu apartamento. Mas, nem tudo é perfeito nessa vida…

O que interessa aqui é a questão do gosto musical.  Já citei neste blog uma série de artigos sobre porque as pessoas gostam de música, ou porque as pessoas dançam, por exemplo. O fato é que a maioria dos artigos científicos trata da música como algo genérico. Sendo que, na realidade, existe uma série de estilos diferentes de música (e de pessoas!). No entanto, o estudo da música nas neurociências, apesar de ter se expandido muito, ainda é muito recente. Dessa maneira, vai ser difícil encontrar artigos que tratem de temas muito específicos. Pelo menos por enquanto.

E por que eu escrevi tudo isso? Porque, nas últimas semanas encontrei um artigo que trata justamente do gosto musical. Já tratei aqui a respeito do sistema de recompensa no post “Recompensados somos!”. Dessa vez, pesquisadores da University of Bonn, na Alemanha, realizaram estudo semelhante ao que eu citei no post acima. A diferença desse estudo foi a utilização de um questionário sobre características de personalidade. Os pesquisadores convidaram os sujeitos a ouvir músicas escolhidas por eles (a música que mais gostavam e a música que mais odiavam) enquanto eram submetidos a uma sessão de ressonância magnética funcional (fMRI).

Os resultados na audição de música agradável/desagradável foram semelhantes a estudos anteriores, com recrutamento do sistema de recompensa ao ouvir a música de que se gosta.  A diferença desse estudo (como escrevi anteriormente) foi o questionário de personalidade. Os pesquisadores correlacionaram os dados do questionário com os dados da ressonância e encontraram forte correlação entre a dimensão relacionada a transcendência e esquecimento de si mesmo e ativação das áreas do sistema de recompensa. A partir desse dado, pode-se pensar que determinados traços de personalidade podem ter ligação com o quanto uma pessoa sente prazer ao ouvir música. O interessante é que, no experimento citado, as pessoas que tinham maior propensão à transcendência foram as pessoas que tiveram menor recrutamento das áreas de recompensa. Quanto mais propensas a imersão em música, menor era o recrutamento do sistema de recompensa.

Uma explicação possível para esse fenômeno é o fato de pessoas acostumadas a se envolverem por música precisariam de um estímulo mais forte para sentir o mesmo prazer que pessoas que não possuem esse hábito. Um exemplo de algo semelhante está nos estudos sobre expressividade. A pessoa expressiva não necessariamente é a que melhor compreende as expressões dos outros. Pelo contrário, por se expressar com maior intensidade, ela necessita dessa mesma intensidade para compreender ações alheias.

Bom, o fato é que estudos como esse são importantes para se tentar entender as diferentes nuances dos efeitos da música nos nossos cérebros. Quem sabe, um dia, não entenderemos por que cada pessoa gosta de um tipo de música?

Hoje deixo um vídeo que tenta misturar artistas de variadas facetas da música brasileira numa só música. Divirtam-se!

Para ler mais sobre o assunto:

Montag, C., Reuter, M., Axmacher, N. How one’s favorite song activates the reward circuitry of the brain: Personality matters! Behavioural Brain Research, v. 225, p. 511-514, 2011.

Blood, A.J., Zatorre, R.J. Intensely pleasurable responses to music correlate with activity in brain regions implicated in reward and emotion. PNAS, v. 98, p. 11818-11823, 2001.

Menon, V., Levitin, D.J. The rewards of music listening: Response and physiological connectivity of the mesolimbic system. NeuroImage, v. 28, p. 175-184, 2005.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Olá Viviane… Muito boa a matéria… Sou apaixonado por música e ciência e acho muito interessante estudos sobre esta conexão.
    Gostaria de te fazer uma pergunta: Quais estudos estão sendo feitos no Brasil com relação a música e a neurociência??
    Obrigado!

    1. Viviane Rocha disse:

      Olá, André!
      Fico feliz que tenha gostado! O assunto me fascina muito mesmo!
      Bom, posso dizer em detalhes sobre o nosso grupo de pesquisa no Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social do Mackenzie. No Brasil, ainda são poucas as iniciativas nessa linha e, posso dizer que as iniciativas são isoladas, já que não há um laboratório que trate só disso.
      Bom, no nosso laboratório estamos rodando o meu experimento que é com EEG (eletroencefalografia) e investiga questão semântica e de emoções básicas em música. O meu projeto tem duas frentes: uma comparando músicos e não músicos numa tarefa semântica e outra comparando pessoas com e sem Síndrome de Williams (sobre a síndrome, tem o post Gloria!). Lá no laboratório, trabalhamos com EEG, estimulação transcraniana com corrente contínua e com Eye Tracking. Paralelamente ao meu projeto, estamos montando agora projetos com estimulação. E aí, tem um design muito específico, na linha de neuromodulação. Os outros projetos que estamos tocando dizem respeito a desenvolvimento motor, coordenação motora e, talvez vamos investigar ouvido absoluto também. Que aliás, é o tema mais estudo por pessoas aqui no Brasil. Espero ter respondido sua pergunta. Na verdade, apesar de conhecer alguns trabalhos isolados por aqui, não conheço nenhum grupo que trabalhe com isso (até agora) nos moldes que a gente trabalha, com um laboratório mesmo. Bom, é isso. Qualquer outr pergunta, é só escrever. Obrigada pelo comentário!
      Viviane

  2. meathook79 disse:

    Pô, gostei… Mas acho que nasci com defeito… Não me expresso bem e não consigo entender pessoas que também não se expressão bem… o.O

    1. Viviane Rocha disse:

      Karol, é isso mesmo… Não é questão de se expressar bem ou mal… É questão de se expressar de forma exagerada ou não… Você é mais expressiva e provavelmente não deve entender bem quem é muito sutil… Mas, também, há exceções. Não precisa ser assim para todo mundo. =)

  3. Viviane, há algum tempo tenho guardado a referência de uma publicação da EDUSP que se relaciona com esse assunto, mas do ponto de vista da física e da chamada psicofísica: o livro “Introdução à Física e Psicofísica da Música”, de Juan G. Roederer (http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?ID=43873).

    Abraços!

    1. Viviane Rocha disse:

      Obrigada, Leonardo! Bacana!

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