Figaro, Figaro, Figaro!

Pelo título, vocês já devem saber do que se trata, não? Seguindo o estereótipo do cantor lírico, começamos… Quem já não ouviu a seguinte frase: “Teremos músicos, cantores, atores…”? E que cantor já não se indignou ao ouvi-la e disse: “cantor também é músico! Mais respeito!”? Bom, para colocar mais lenha na fogueira dessa discussão, hoje falo sobre um artigo de 2010 que trata exatamente do cérebro dessa classe tão incompreendida: a dos cantores líricos.

Nesse estudo realizado na Universidade de Tübingen, na Alemanha, os pesquisadores queriam investigar as diferenças entre o funcionamento cerebral ao cantar de cantores líricos e pessoas sem conhecimento musical ou vocal. Para isso, criaram três grupos, um formados por cantores de ópera profissionais, estudantes de canto lírico e pessoas que nunca tinham tido aulas de canto. Pediram para todas elas cantarem pequenos trechos da ária “Caro mio ben” (Fiquem tranquilos, o vídeo que colocarei aí embaixo não será de Caro mio bem!) enquanto era realizada uma sessão de ressonância magnética funcional (fRMI).

A hipótese dos pesquisadores era de que se encontraria diferenças entre grupos, mas que essas seriam diferentes ainda dos estudos com instrumentistas. E, realmente, eles encontraram diferenças significativas entre as pessoas sem treinamento vocal, estudantes de canto e cantores, sendo que essas diferenças se correlacionavam fortemente com o tempo de estudo dos sujeitos. Sendo assim, a diferença era maior entre o cantor profissional e o sujeito sem treinamento e menor entre cantores e estudantes, por exemplo.

Bom, e qual foram as tais diferenças? Os pesquisadores encontraram maior ativação do córtex sensóriomotor. Essa ativação não se encontra em instrumentistas. Mais precisamente, cantores possuem maior recrutamento dessa área, principalmente na porção relacionada à percepção da musculatura da laringe. Até aí, dá para entender bem porque essa área é mais recrutada em cantores. Encontraram também, maior recrutamento do córtex somatosensorial, fortemente relacionada à percepção sensorial. Pelo ato de cantar ser baseado em percepção de sensações e muito pouco em feedback visual (como acontece com instrumentos em que se pode ver teclas, cordas, trastes…), é de se esperar que ocorra esse fenômeno.

Os pesquisadores encontraram outros dados importantes. Cantores recrutam mais áreas do córtex pré frontal dorsolateral ao cantar. Essa área está amplamente relacionada ao planejamento e à memória de trabalho, o que leva a acreditar que o cantor realiza uma intensa atividade de monitoramento do canto, recrutando mais essa área se comparado a pessoas que não possuem treinamento vocal. Além disso, foi encontrado maior recrutamento de regiões do cerebelo, fato que ocorre também em instrumentistas e que estaria relacionado à precisão rítmica e à automatização de movimentos, característica necessária a todo e qualquer músico.

Bom,  com essa pesquisa começamos a entender melhor as diferenças que existem mesmo dentro da classe dos músicos. Devo falar mais sobre esse assunto no futuro. Estão saindo novos artigos bem interessantes sobre o canto e os cantores…

Deixo dois vídeos aproveitando o estereótipo do cantor… O primeiro é do episódio de Simpsons em que Homer se torna cantor de ópera. O único problema é que ele só canta bem deitado. Seria um excelente sujeito para a ressonância magnética!

E um pouquinho de graça:

Para ler mais sobre o assunto:

Kleber, B.; Veit, R.; Birbaumer, N.; Gruzelier, J.; Lotze, M. The brain of opera singers: experience-dependent changes in functional activation. Cerebral Cortex, v. 20, p. 1144-1152, 2010.

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5 comentários Adicione o seu

  1. meathook79 disse:

    A-DO-REEEEI !!! ^^

    E fiquei super feliz de entender os termos científicos… Não esqueci tanta coisa desde o colégio…

    1. Viviane Rocha disse:

      Que bom que gostou!
      Viu só, vale a pena estudar na escola… Pelo menos pra não boiar no meu blog anos depois… Hehe…

  2. meathook79 disse:

    AHhahaha, né?!
    Vivi, quando teremos outro post?!

  3. Estupendo. Ademais, nós, músicos, por natureza, já sabíamos de todos os estímulos que solicitamos aos nossos cérebros. Vivam (nós) músicos de todas as áreas……………..

    1. Viviane Rocha disse:

      É fato que quem escolhe fazer música, de alguma maneira (intuitiva ou não) já sabe o quão poderosa essa arte pode ser.

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