O fim do absolutismo…

Não, o blog não mudou de perfil e se transformou em um blog sobre história! Decidi retomar o assunto do ouvido absoluto, depois de ter lido mais a fundo um trecho do livro”The singing Neanderthals” de Steven Mithen. Muito se especula acerca do ouvido absoluto. Há pessoas que dizem que todos o têm ao nascer e alguns o perdem. Há pessoas que dizem que o ouvido absoluto tem relação com falar uma língua tonal. Há pessoas que acreditam que ele seja utilíssimo. Outras, que ele não passa de alguma habilidade que foi importante em algum momento evolutivo do homem, mas que deixou de ser essencial.

A verdade é que os pesquisadores ainda não chegaram a um consenso sobre o tema. Mas, há muitas especulações. E ciência, antes de comprovar fatos, é feita de especulações! E eu, particularmente, gosto desse lado especulativo da ciência. Só não podemos nos valer dele por muito tempo, mas não faz mal especular de vez em quando. Bom, é sobre uma dessas visões que escrevo hoje.

Os pesquisadores Jenny Saffran e Gregory Griepentrog, da Universidade de Michigan, conduziram em 2001 um estudo muito interessante com bebês de 8 meses de idade e adultos. Tanto bebês quanto adultos ouviam estímulos de palavras e partes de palavras. Passavam por uma fase de familiarização com os estímulos para, depois, passar por um teste de reconhecimento dos mesmos. Os mesmo estímulos eram posteriormente apresentados com mesma altura e com alturas diferentes. A descoberta interessante desse estudo foi o fato de bebês reconhecerem somente as palavras que foram apresentadas no mesmo tom da fase de familiarização. O mesmo não aconteceu para adultos.

Esses resultados indicam que os bebês, na fase em que ainda não adquiriram linguagem, se valem do ouvido absoluto para compreender mensagens acústicas. Isso indica que, provavelmente essa seja uma característica comum a todas as pessoas ao nascer, mas que seria perdida durante a vida. O que se acredita é que, possivelmente, pessoas que são estimuladas com música desde a infância, tenham a capacidade de preservar essa habilidade, já que a utilizam mais do que pessoas sem treinamento musical formal.

Além disso, o ouvido absoluto complicaria a aquisição da linguagem, uma vez que quem se valesse dele para compreender a fala poderia compreender a mesma frase falada por um homem e uma mulher como frases diferentes, por causa da variação de altura. Dessa forma, perder o ouvido absoluto poderia ser útil para o melhor desenvolvimento da linguagem e só seriam capazes de mantê-lo pessoas que fazem uso dessa habilidade com frequência. Claro que essa teoria não responde todas as perguntas acerca do tema. Ainda há que se estudar muito para melhor compreender essa capacidade.

Hoje deixo um vídeo do Bobby McFerrin dando uma pequena aula de canto. Assistindo a esse vídeo, fiquei pensando como seria dar uma aula de canto sem se valer da linguagem… Ainda acredito que música e linguagem têm mais em comum do que se imagina. No futuro saberemos…

Para ler mais sobre o assunto:

Saffran, J.R.; Griepentrog, G.J. Absolute pitch in infant auditory learning: evidence for developmental reorganization. Developmental Psychology, 37, p. 74-85, 2001.

Mithen, S. The singing neanderthals. The origins of music, language, mind and body. Harvard University Press: Cambridge, 2006.

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