Isso me dá arrepios!

Pois é, já tratei aqui do recrutamento do sistema de recompensa em resposta a estímulos prazerosos, dentre eles, a música*. Já falei também, que acredito que a característica musical mais cara ao ser humano seja sua capacidade de evocar emoções nos ouvintes. As pesquisas com música e emoção estão em pleno desenvolvimento e ainda há muito a ser estudado. Especialmente porque ainda há muitas barreiras metodológicas para a realização de estudos com emoção no âmbito do laboratório.

Muitas contribuições ao estudo com emoções têm sido fornecidas por meio da utilização de medidas psicofisiológicas, tais como frequência cardíaca e sua variação, frequência respiratória e sua variação, pressão arterial e envolvimento da musculatura facial (como já citado neste blog**), por exemplo. Essas medidas avaliam alterações diretas no funcionamento do corpo, que podem ser relacionadas à atividade emocional. Aliadas a outros tipos de medidas, tais como medidas de neuroimagem ou eletrofisiologia cerebral, podem auxiliar na compreensão do funcionamento do cérebro em situações de emoção intensa.

Um tipo de medida muito interessante é a de condutância da pele. Por meio dessa avaliação, pode-se avaliar aspectos eletrofisiológicos da pele. Em estudo sobre percepção de trechos musicais relacionados a emoções, Stéphanie Khalfa e colaboradores da Universidade de Montreal avaliaram respostas de condutância da pele enquanto sujeitos ouviam quatro tipos de música, relacionadas a alegria, tristeza, medo e calma. Os pesquisadores encontraram medidas semelhantes para medo e alegria, assim como para tristeza e calma, indicando que a medida de condutância da pele está mais relacionada ao grau de excitação que o estímulo provoca do que ao caráter da emoção evocada.

O que acontece quando se vivencia uma experiência emocional intensa é o que muitos chamam de “arrepios”, que podem ser avaliados por meio da condutância da pele. Quem já não ouviu alguém dizer que se arrepiou ouvindo determinada música ou intérprete. Particularmente, para mim, o “arrepio” está diretamente relacionado a uma excelente interpretação musical, que carrega uma carga emocional forte. Para você que está lendo, pode vir em resposta a outro tipo de estímulo. No entanto, o “arrepio” é um tipo de resposta natural do corpo que indica o acontecimento de uma experiência forte emocional. A não ser que você esteja sentindo frio… Aí, a razão do arrepio é outra.

Bom, hoje deixo dois vídeos que ilustram um pouco do que escrevi. São duas interpretações da mesma ária. A primeira me é emocionalmente neutra, enquanto a segunda me arrepia do começo ao fim…

*ver post “Recompensados somos”

**ver post “Smile!”

Para ler mais sobre o assunto:

Khalfa, S.; Peretz, I.; Blondin, J.P.; Manon, R. Event-related skin conductance responses to musical emotions in humans. Neuroscience Letters, v. 328, p. 145-149, 2002.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Diego disse:

    Haha, que engraçado, comigo foi ao contrário (me arrepiei só no refrão do primeiro vídeo e nada no segundo). Estava pesquisando sobre esses arrepios que me dá quando ouço certas partes de músicas e encontrei esse post que me agradou de certa forma. Vejo que as pesquisas estão avançando aos poucos e, talvez por isso, não encontre muito material sobre. No meu caso eu costumo me arrepiar todas as vezes em um determinado solo do Jimi Hendrix. O mais engraçado é que, pela expectativa, eu começo a me arrepiar um pouco antes do início do solo mas, de certa forma, controlando. Não sei qual seria a explicação mas, é como se eu pudesse “invocar” novos arrepios e manter uma intensidade relativamente alta por um bom tempo. Gostaria de servir de cobaia para muitos testes hahaha.

    1. Viviane Rocha disse:

      Oi Diego! O blog andou inativo, mas em breve volta com conteúdos novos e atualizados. Sobre as suas observações, muito dos arrepios que sentimos vem da própria expectativa (ou quebra dela) em música. Não necessariamente emoções, como seria o caso desse post. Um grande engajamento no nosso cérebro e sistema nervoso periférico pode vir por diferentes fatores, como surpresa, apreciação da forma (entender a música, saber que o Hendrix vai fazer um solo “arrepiante”)… Os arrepios dos quais eu trato no post são só um tipo de medida utilizado em pesquisa. E vale lembrar que as pesquisas ainda estão longe de investigar situações naturais e muito complexas. Investigamos pequenas porções de fenômenos, como num microscópio.
      Agradeço seu comentário e sugiro que você não deixe de pesquisar, lembrando sempre de pesquisar em fontes confiáveis, que usem dados de pesquisas reais. Um abraço!

    1. Viviane Rocha disse:

      Bacana sua sugestão, Jamile! Obrigada!

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