Savants!

Vocês se lembram do Rain Man? É um filme bem antigo, mas mostra as habilidades peculiares do personagem principal. O importante é lembrar que Raymond, o personagem de Dustin Hoffman tinha habilidades extraordinárias de cálculo e memória. Raymond era autista e tinha as chamadas habilidades de savant. O termo vem de idiot savant, que significa idiota sábio. Com o tempo, foi-se utilizando somente savant para denomimar esse tipo de pessoa que tem atraso cognitivo, mas apresenta habilidades extraordinárias.

Muito se tem estudado acerca das habilidades de savant. Especialmente na população autista. Há habilidades diversas nessa população. Savants com capacidades de cálculo incríveis, capazes de dizer o dia da semana de qualquer data, sem esforço, por exemplo. Há também, os savants com habilidades artísticas. Muitos conseguem desenhar uma paisagem com imenso detalhe olhando para ela apenas uma vez.

Há também os savants musicais. E aí, não são apenas autistas que podem ter boas capacidades musicais, mas também pessoas com síndrome de Williams (que eu citei no post “Gloria”). Os savants musicais são capazes de tocar uma peça de memória corretamente, sem tê-la escutado mais de uma vez. As habilidades podem variar. Acreditava-se que os savants eram capazes de somente reproduzir fielmente uma peça musical, devido a sua incrível memória. Muitos possuem, também, ouvido absoluto. No entanto, há savants que, além de reproduzir muito bem uma peça, são capazes de improvisar, utilizando de forma correta as regras musicais relacionadas à forma e estrutura da música.

Hoje, acredita-se que os savants musicais têm compreensão das regras de harmonia e forma e que conseguem, de alguma maneira, absorvê-las de forma mais rápida do que as pessoas normais. Suas habilidades estariam relacionadas à memória, mas também a um certo grau de compreensão de regras. Muitas performances dessas pessoas podem ser expressivas, no entanto, a compreensão das emoções envolvidas no fazer musical não estão presentes. E isso vale tanto para autistas quanto para pessoas com síndrome de Williams, já que ambas as síndromes apresentam déficits no processamento de emoções, embora de maneiras diferentes.

Hoje deixo um vídeo de uma entrevista com um rapaz de então 13 anos e sua mãe. O rapaz toca Beethoven e depois muda os estilos musicais…

Para ler mais sobre o assunto:

Mithen, S. The singing neanderthals. The origins of music, language, mind and body.Harvard University Press: Cambridge, 2006.

Martens, M.A., Reutens, D.C., Wilson, S.J. Auditory cortical volumes and musical ability in Williams syndrome. Neuropsychologia, v. 48, p. 2602-2609, 2010.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Lawrence Ikeda disse:

    Mais uma vez, a querida Viviane nos mostrou com grande clareza e harmonia os incríveis e surpreendentes portadores da Síndrome de Savant.
    Parabéns pelas publicações e vamos aguardar as próximas.

    1. Viviane Rocha disse:

      Obrigada, Lawrence!
      Vou continuar escrevendo…

  2. Gui Prioli disse:

    Oi Vivi!
    Faz tempo que não leio seu blog! Eu sempre achei muito interessante essa história de savant. Aí queria te perguntar duas coisas. A primeira tem a ver com um trecho do seu texto: “Muitas performances dessas pessoas podem ser expressivas, no entanto, a compreensão das emoções envolvidas no fazer musical não estão presentes”. Isso é uma questão que me passou pela cabeça vendo o vídeo da Gloria e esse do Rex. Se eles possuem uma limitação quanto ao processamento de emoções, isso significa que o domínio que eles possuem sobre a música é essencialmente técnico?
    Eu queria também saber de onde vem essa capacidade supreendente de memorização ou processamento de informações – quer dizer, como a utilização que eles fazem do cérebro difere da nossa e porque nós não possuímos essas capacidades e eles não possuem as nossas. (Tá, tenho consciência de que é um pouco complexa a pergunta).
    Beijos!

    1. Viviane Rocha disse:

      Vamos lá, Gui… Adoro suas perguntas, pode perguntar sempre!
      Sobre a questão emocional, é isso mesmo… O domínio deles se dá no aspecto técnico. Os autistas, por exemplo, têm dificuldades em compreender as emoções dos outros, dificilmente acertam na identificação de emoções em faces, por exemplo e tem imensas dificuldades de socialização, exatamente por não conseguirem compreender o outro. No caso deles, os problemas emocionais são associados a problemas de linguagem. Alguns não desenvolvem linguagem, ou a desenvolvem tardiamente e com dificuldade. As pessoas com síndrome de Williams são exatamente o oposto: são extremamente sociáveis e têm capacidades linguísticas preservadas. no entanto, vão para o outro extremo. São tão sociáveis que acabam sendo inconvenientes. Nos dois casos, há dificuldades emocionais, embora elas sejam manifestadas de maneiras completamente diferentes. As habilidades musicais de pessoas dos dois grupos são, embora isso ainda não tenha sido amplamente estudado, essencialmente técnicas. E desenvolvidas por boas capacidades de memória, já que nem autistas e nem pessoas com Williams lêem partituras.
      Quando às diferenças cerebrais, ainda não se sabe muito. Há diferenças estruturais em relação a sujeitos normais, mas, no caso do autismo não se sabe ao certo quais são essas diferenças. Sobre a síndrome de Williams, há grande atraso cognitivo, menor volume cerebral e maior córtex auditivo, o que favorece as habilidades musicais. Tem um estudo interessante do do laboratório do Mackenzie com estimulação transcraniana por corrente contínua. A estimulação usa correntes de baixíssima intensidade que podem, dependendo da polaridade, excitar ou inibir determinada região cerebral. Os pesquisadores conseguiram, por meio da estimulação, gerar capacidades de savant em pessoas normais. No caso, a tarefa era relacionada à memória literal, já que pessoas normais costumam fazer associações semânticas e savants guardam todas as informações de maneira literal. Provavelmente, o cérebro de autistas tem alguma diferença no lobo temporal (área estimulada), mas é preciso realizar mais pesquisas a respeito.
      Espero que tenha ajudado!
      bjo

  3. Sandra Felix disse:

    Amei o artigo Viviane!

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