Mais que um bolero!

Eu sempre achei o Boléro de Ravel um tanto sem graça… É uma das peças mais populares da música erudita. Mas eu, particularmente, acredito que ela não faz jus ao compositor, que tem peças belíssimas e que mereciam ser conhecidas. Mas o que a neurociência tem a dizer sobre isso? Alguns estudiosos acreditam que Ravel tenha composto seu Boléro no auge de sua demência, o que talvez tenha feito com que faltasse à peça um desenvolvimento (quem já ouviu, sabe que a peça é a constante repetição de um tema, com variações de instrumentos e de dinâmica, somente).

Mas, o que realmente aconteceu com Ravel? Não se sabe ao certo. O que se sabe é que ele passou por um processo degenerativo que fez com que ele adquirisse leve afasia* e com que perdesse a capacidade de escrever música. Em 1928, tocando sua Sonatine em Madri, Ravel pulou do primeiro movimento para o finale. Foi um dos primeiros sinais de sua degeneração. Esse fato poderia sugerir perda na percepção da forma, o que talvez fizesse com que ele compusesse uma peça sem desenvolvimento, como o Boléro. Mas, isso é só especulação mesmo…

O que se tem certeza de que ocorreu foi a perda da capacidade de Ravel de escrever música. Em 1933, ele precisava da ajuda de amigos para escrever suas músicas, embora ainda tivesse plenas capacidades de compor. Devido à afasia, mesmo leve, Ravel também tinha dificuldades para falar, mas não havia perdido as capacidades de compreensão da fala e da escrita. O neurologista de Ravel relatou que o compositor ainda podia tocar escalas e escrever algumas partes de suas composições. No entanto, quando as ouvia, podia perceber erros de escrita que tinha cometido. Ler partituras e tocá-las ao piano também não era mais possível a Ravel. No entanto, a música mantinha-se viva em sua cabeça.

Até hoje não se sabe que tipo de lesão Ravel apresentava, uma vez que seu cérebro não foi examinado após sua morte. Acredita-se que ele sofria, além da afasia, de amusia adquirida. Mas, pode ser que ele tivesse degeneração em outras áreas cerebrais, gerando os problemas especificamente musicais.

Pacientes como Ravel, que têm lesões e perdem algumas de suas capacidades contribuem muito para que a ciência possa identificar como os cérebros saudáveis realizam seus processamentos. No caso de Ravel, tendo-se acesso ao seu cérebro pós-mortem, seria possível identificar áreas relacionadas à linguagem (já que ele desenvolveu afasia) e ao processamento musical, especificamente à capacidade de notar e ler música, além da capacidade de transportar a música de um domínio para outro. No caso, da audição interna para a escrita e da escrita para a execução. Casos que envolvem linguagem e música são interessantes no debate acerca das origens da linguagem e da música… Mas isso fica pra outro post…

Deixo um vídeo de uma obra que considero bem mais relevante do que o Boléro… O vídeo é longo, mas vale a pena.

*afasia: condição caracterizada por perda total ou parcial da capacidade de se comunicar verbalmente. Pode afetar somente a fala, somente a compreensão, ou ambas.

Para ler mais sobre o assunto:

Mithen, S. The singing neanderthals. The origins of music, language, mind and body. Harvard University Press: Cambridge, 2006.

Sacks, O. Alucinações musicais. Relatos sobre música e cérebro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Gui Prioli disse:

    Caramba! Não sabia de nada disso.
    Eu li um daqueles encartes de coleções da Folha ou coisa parecida, sobre Ravel, mas lá não falava sobre esse lance da afasia. Que coisa!
    Concordo que o Concerto para piano do Ravel é tem mais a dizer que o Bolero, mas o Bolero também é uma obra fantástica – e a possibilidade dele a ter escrito durante um processo degenerativo torna tudo ainda mais surpreendente. Porque uma coisa é, como Beethoven, compor com o sentido da audição prejudicado, mas com a central de informações intacta; outra coisa é compor com própria a central de informações meio avariada (uau!).
    Hoje mesmo o Arthur mostrou uma obra linda do Ravel para coro. Agora li seu post sobre ele. Estou gostando cada vez mais de Ravel. E do seu blog também!
    Beijão, Vivi!

  2. Viviane Rocha disse:

    Pois é, Gui… Bem impressionante mesmo conseguir compor tão bem sem as plenas funções cerebrais, né? Estava lendo que ele comentou pouco antes de morrer que tinha uma ópera inteira na cabeça, mas que sabia jamais iria escrevê-la. Triste um processo desses, com a pessoa tão consciente do que não pode fazer. Mesmo assim, Ravel era genial! Adoro mesmo! Tem coisas belíssimas pouco conhecidas. Bom que você gosta cada vez mais dele… e do meu blog também! Fico feliz!
    Bjo

  3. Sandra Felix disse:

    Viviane, eu não sabia claramente quais consequências diretas na música, os problemas neurológicos haviam provocado em Ravel! Obrigada! Foi MUITO ÚTIL!
    Gosto muito da história da Anne Adams, aquela pintora, que teve problemas neurológicos e obsessivamente ouvia o Bolero a ponto de criar um novo estilo de pintura baseado na sua nova percepção. Me lembrei desse fato porque, depois de ler seu artigo, ficou ainda mais curioso!
    Estou amando seu Blog!

    1. Viviane Rocha disse:

      Obrigada pelo comentário, Sandra! Não conheço a Anne Adams! Vou procurar…

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