O poder da música vai além da quinta da Beethoven…

Nessa semana, saiu uma reportagem sobre pesquisa realizada na UFRJ com células tumorais e música. De acordo com os pesquisadores, após exposição à 5a. sinfonia de Beethoven, cerca de 20% das células tumorais morreram e muitas das sobreviventes tiveram seu tamanho reduzido. As células expostas à obra “Atmosphères” de György Ligeti também tiveram resultados semelhantes aos da sinfonia de Beethoven, enquanto células expostas à sonata para dois pianos em ré menor de Mozart não tiveram o mesmo efeito.

Agora, organizemos as idéias. Não é de hoje que se sabe que a música produz efeitos não só relacionados a aspectos emocionais, mas físicos nos nossos organismos. Uma série de estudos na área de musicoterapia indicam o efeito da música na produção de diversos neurotransmissores. Sabe-se que cantar em conjunto com alguém produz a liberação de oxitocina, substância envolvida no estabelecimento de relações de confiança. A oxitocina também é liberada durante o orgasmo, o que facilita a relação de confiança entre casais.

Além disso, a audição de música agradável está relacionada ao aumento da produção de imunoglobulina A, anticorpo importante na proteção contra gripes e infecções das mucosas. A música também está relacionada ao aumento da produção de melatonina (reguladora do sono), epinefrina, norepinefrina (relacionadas a alerta e excitação, importantes no sistema de recompensa, do qual já falamos anteriormente*) e serotonina (importante regulador do humor, sendo que o Prozac e a maior parte dos atidepressivos atuam no sistema serotoninérgico).

Como a maioria das pesquisas apresenta resultados positivos quando os sujeitos escutam música agradável, ainda não se sabe ao certo quais propriedades acústicas musicais seriam responsáveis pelos bons resultados. Quando se trata de gosto, resultados podem variar consideravelmente de pessoa para pessoa. Da mesma forma, se há padrões de resposta do corpo de acordo com propriedades acústicas musicais, é possível que se possa chegar a um padrão que funcione para todos (ou quase todos) os seres humanos. Na pesquisa desenvolvida na UFRJ, pesquisadores ainda devem testar vários tipos de música para tentar chegar às respostas dessas perguntas.

Uma observação: Na matéria do Globo, os cientistas citam o “efeito Mozart”, muito famoso nos anos 90, que gerou muitas interpretações equivocadas na década seguinte. Como conclusões do estudo do efeito Mozart, os pesquisadores citaram o fato de que crianças que ouviam Mozart se tornariam mais inteligentes. No entanto, falhas metodológicas de pesquisa e conclusões mal elaboradas geraram esse termo “efeito Mozart” que é errôneo e amplamente utilizado. As pessoas não ficam mais inteligentes ouvindo Mozart, elas só se dedicam mais a tarefas quando ouvem música que as agrada (e aí pode ser Mozart, Michael Jackson, The Cure ou John Cage, já que música agradável é um conceito um tanto variável), tendo melhor desempenho.

Deixo um vídeo sobre efeitos “físicos” do som em corpos. É uma brincadeira com fluidos não newtonianos da série Big Bang Theory.

*ver post “Recompensados somos”

Para ler mais sobre o assunto:

matéria do Globo: http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/03/29/celulas-tumorais-expostas-quinta-sinfonia-de-beethoven-perderam-tamanho-ou-morreram-924114082.asp

Levitin, D. J. The world in six songs. How the musical brain created human nature. Dutton: New York, 2008.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Dulcinéia Bastos Duarte disse:

    Vivi, amei este post sobre “o poder da música vai além da 5° de Beethoven”. Amo música!!! sempre me fez muito bem, depois de tantas informações amarei … ainda mais. Bjs

    Dulci

    1. Viviane Rocha disse:

      Obrigada, Dulci! Que bom que gostou! Bjo

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