O que o povo Mafa tem a ver comigo?

Se você gosta de conhecer coisas pelo mundo afora, já deve ter pensado sobre as diferenças culturais entre diferentes países. Mesmo no mundo ocidental, os costumes variam consideravelmente de país para país. Apesar das diferenças, há elementos que são universais em todas as culturas e que, nos permitem a comunicação e as boas relações diplomáticas, por exemplo.

Um ramo dos estudos científicos se concentra em realizar pesquisas transculturais. Do que se trata? Trata-se de avaliar o que se pode compreender universalmente, independente da bagagem cultural do indivíduo. Dou um exemplo. Um dos estudos transculturais mais conhecidos foi o conduzido por Paul Ekman nos anos 1980. Ekman estudou o reconhecimento de emoções básicas (alegria, tristeza, raiva, medo e nojo) em faces por pessoas de diferentes culturas. Como resultado, o pesquisador encontrou semelhanças nas respostas das populações estudadas, independente da cultura em que as pessoas estavam inseridas. Dessa forma, se eu nasci no Japão, na África ou no Brasil, minha concepção de feição alegre é praticamente a mesma.

Da mesma forma, pode-se pensar esse tipo de estudo em música. Apesar da maioria da população mundial ouvir música ocidental baseada nas mesmas regras (E aí, puristas que me perdoem, mas cabem na mesma leva Mozart, Beyoncé, Beatles e Louis Armstrong), ainda existe uma parcela da população mundial que não foi exposta a esse tipo de música. É uma parcela ínfima, é verdade. Por isso, o escasso número de pesquisas transculturais em música. (Em estudo de 2009, citam-se somente 3 artigos publicados até hoje!!!)

No entanto, em estudo recente, Thomas Fritz (do Instituto Max Planck, em Leipzig, Alemanha) e colaboradores fizeram experimento semelhante ao de Ekman. Eles estudaram o povo Mafa, que vive em Camarões e é isolado culturalmente. Portanto, os Mafas nunca tinham ouvido (até a relização do estudo, pelo menos) música ocidental. Os pesquisadores pediram que os Mafas reconhecessem em trechos musicais, quais representavam alegria, tristeza e medo. Compararam os resultados com respostas do grupo de ocidentais. O que os pesquisadores descobriram foi que, apesar de não se saírem tão bem na tarefa quanto os ocidentais, os Mafas acertaram na maioria dos excertos, saindo-se melhor do que acertassem por acaso.

Estudos como esse, mostram evidências de que existem parâmetros musicais inatos no ser humano, que independem de treinamento ou de bagagem cultural. Uma pena que seja cada vez mais difícil conduzir experimentos desse tipo. Por exemplo, os Mafas estudados já não desconhecem a música ocidental…

Deixo 2 vídeos hoje. O primeiro, do Bobby McFerrin ensinando uma escala pentatônica para a platéia. Ele comenta que em todos os lugares onde ele já se apresentou a platéia conseguiu fazer a escala. No entanto, fica uma pergunta: todos os lugares onde ele já foi se apresentar não incluem tribos ou o povo Mafa, por exemplo. Será que eles também conseguiriam fazer?

O segundo vídeo é de um músico da Mongólia. Só compartilho porque o tema de hoje são as diferenças culturais. Esse vídeo traz uma música bem diferente da ocidental. E é belíssimo. Vale a pena!

Para ler mais sobre o assunto:

Fritz, T.; Jentschke, S.; Gosselin, N.; Sammler, D.; Peretz, I.; Turner, R.; Friederici, A.D.; Koelsch, S. Universal recognition of three basic emotions in music. Current Biology, v. 19, p. 1-4, 2009.

Ekman, P.; Friesen, W. O’Sullivan, M. et al. Universals and cultural differences in the judgements of facial expressions of emotion. Journal of Personality and Social Psychology, v. 53, p. 712-717, 1987.

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