Essa música é meio esquisita…

Você já deve ter dito isso ou já deve ter ouvido alguém dizer isso quando quer dizer que os músicos estão desafinando ou estão desencontrados. Isso porque músicos têm um jargão muito específico para tratar cada aspecto musical. Esse jargão não é dominado por não músicos, mas nem por isso eles deixam de compreender quando alguém desafina.

Uma prática muito comum nos estudos de neurociência e música é comparar grupos de músicos com grupos de pessoas sem treinamento musical. Eu mesma já escrevi um post sobre diferenças estruturais e funcionais entre cérebros de músicos e não músicos neste blog. https://neuroniosempauta.wordpress.com/2011/02/03/o-canada-nao-e-aqui/

Esse tipo de pesquisa nos ajuda a entender fenômenos de neuroplasticidade. Como no estudo de Gottfried Schlaug, em que percebeu-se que o treinamento musical teve influência direta nas dimensões dos corpos calosos de crianças. Ou, também, no tratamento de afasias*, feito por terapia de intonação melódica (MIT – Melodic Intonation Therapy), em que se usa melodias para reabilitar a fala em pacientes com lesão cerebral.

Além da influência em estudos que envolvem neuroplasticidade, pesquisas que comparam músicos e não músicos ajudam no entendimento das capacidades musicais inatas ao ser humano. Entendendo a diferença entre pessoas com intenso treinamento musical e pessoas sem esse tipo de treinamento, podemos compreender quais aspectos do entendimento musical estão relacionados ao treino e quais são comuns a todos os seres humanos (Ou quase todos… Falarei sobre isso em breve).

O que tem sido encontrado em estudos recentes é que pessoas sem formação musical são capazes de reconhecer aspectos básicos como estrutura e forma de uma peça musical, além de distinguir dissonâncias de consonâncias e reconhecer quando uma música tem final inconclusivo. A única diferença entre músicos e não músicos seria a incapacidade dos últimos de nomearem esses aspectos. Estudos eletrofisiológicos (com EEG – eletroencefalografia) têm mostrado que a resposta cerebral ao se ouvir música é a mesma para iniciados ou não. A diferença, por exemplo, em tarefas de distinção de dissonâncias, é que pessoas não treinadas acertam menos do que pessoas treinadas e demoram mais para fazer a distinção. O que era de se esperar, ou as horas de estudo diário dos profissionais não teriam razão para existir.

O que se pode inferir das pesquisas é que nossos cérebros são musicais, ou seja, têm a predisposição para desenvolver habilidades musicais e compreendê-las, mesmo que não passemos horas no conservatório estudando. E, convenhamos, essa é uma característica boa para músicos, que podem ter seu trabalho entendido e apreciado não só pelos colegas e para não músicos, que podem ouvir e compreender esse fenômeno tão complexo que é a música.

Hoje deixo um vídeo do Bobby McFerrin em que ele divide a performance com a platéia “leiga”. Aproveito para deixar perguntas: ele seria capaz de fazer isso em qualquer lugar do mundo? Será que as diferenças culturais implicam diferenças estruturais no cérebro?

*afasia: condição caracterizada por perda total ou parcial da capacidade de se comunicar verbalmente. Pode afetar somente a fala, somente a compreensão, ou ambas.

Para ler mais sobre o assunto:

Bigand, E.; Poulin-Charronnat, B. Are we “experienced listeners”? A review of the musical capacities that do not depend on formal musical training. Cognition, v. 100, p. 100-130, 2006.

Schlaug, G.; Forgeard, M.; Zhu, L.; Norton, A.; Norton, A.; Winner, E. Training-induced Neuroplasticity in Young Children. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1169, p. 205-208, 2009.

Schlaug, G.; Marchina, S.; Norton, A. Evidence for plasticity in white-matter tracts of patients with chronic Broca’s aphasia undergoing Intense Intonation-based Speech Therapy. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1169, p. 385-394, 2009.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Gui Prioli disse:

    Oi Vivi!
    Você já viu aquele outro vídeo dele chamado “The power of the pentatonic scale”? Nesse vídeo ele canta uma melodia acompanhado pela plateia, mas sobre a escala pentatônica. Aí ele comenta que é curioso como não importa em que lugar do mundo ele faça isso, a resposta é sempre a mesma – e todo mundo consegue cantar o acompanhamento pentatônico conforme ele “rege”.
    Sobre o assunto principal do post, eu acho que o ouvido leigo não só é capaz de identificar algum desajuste mais destacado numa execução como também de diferenciar uma execução boa de uma execução extraordinária, ainda que não entenda bem o porque disso. Ou seja, essa capacidade inata do ouvido se aplica tanto para o aspecto negativo quanto para o positivo. Mas isso é só uma hipótese que eu tenho. O que você acha?

    Beijo!

    1. Viviane Rocha disse:

      Oi Gui!

      Pois é… Na verdade, minha idéia inicial era usar o vídeo da pentatônica. Aí, acabei descobrindo que não existem muitos estudos transculturais… E era sobre isso que eu ia falar… É até engraçado porque se fala muito em habilidades inatas e independentes da cultura, mas existem muito poucos estudos sobre isso em música. Existem estudos sobre emoção, mas não sobre características musicais que independem da cultura. Mesmo os estudos sobre preferência musical de bebês não dizem muito sobre independência em relação à cultura porque os bebês já escutam de dentro das barrigas das mães. Logo, já têm alguma bagagem cultural ao nascer.
      Sobre o assunto do post, eu concordo com você, mas eu acredito também que essa capacidade varie de pessoa pra pessoa de acordo com a vivência musical. Se a pessoa escuta mais música, se vai a shows, concertos, ela acaba adquirindo essa capacidade de distinção mais precisa.
      Acho que é isso! Adoro suas perguntas! Pode mandar sempre!
      bjo

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