Será que eu posso não estudar hoje? (ou Interações auditivo-motoras parte 2)

Como prometido, retomo o tema das interações auditivo-motoras da semana passada. Dessa vez, com a parte que considero mais interessante da história…

Semana passada escrevi sobre a sincronização de música e movimento e como o cérebro automaticamente faz com que as pessoas se movam ao som de música. Um outro tipo de interação auditivo-motora se resume no seguinte: se eu pensar que toco um instrumento, meu cérebro funciona como se eu realmente o estivesse tocando.

Explico com os resultados de um estudo conduzido por Lahav e colaboradores na Universidade de Boston. Neste estudo participantes músicos e não músicos aprendiam a tocar sequências simples de notas ao piano. Depois, eram instruídos a tocar as sequências aprendidas sem feedback auditivo (note que isso somente é possível em um piano elétrico!) e, em outra condição, a somente ouvir as sequências sendo tocadas por outra pessoa.

O que os pesquisadores descobriram, por meio de ressonância magnética funcional (fMRI), foi, que nas duas as condições, a atividade cerebral era praticamente a mesma. Explico melhor. Em termos resumidos, utilizamos nosso córtex auditivo para ouvir e nosso córtex motor para realizar atividades motoras quaisquer, como tocar um instrumento, por exemplo. O natural quando se toca um instrumento é que, o córtex motor esteja ativado e o córtex auditivo também, já que produzimos som.

No entanto, nas condições do experimento conduzido por Lahav, ou se tocava sem ouvir, ou se ouvia sem tocar. O interessante é que, nas duas condições, tanto o córtex motor quanto o córtex auditivo dos sujeitos eram ativados, mesmo em quem nunca tinha tocado piano antes de participar do experimento. Houve diferenças de ativação cerebral entre músicos e não músicos, mas o fenômeno foi o mesmo nos dois grupos.

Essa descoberta pode trazer grandes benefícios para a prática de um instrumento musical. Depois de ler esse artigo de Lahav, lembrei da minha professora de piano, que dizia: “se você não tiver tempo de estudar, pense na música.” Na época, eu não achava que daria certo. Mas, agora… É claro que não é para ninguém parar de estudar, mas, estando sem tempo, pensar sobre a peça que você estuda pode ser, para o seu cérebro, algo muito próximo de realmente executá-la.

Deixo um vídeo que não tem necessariamente relação com o tema de hoje, exceto por ser uma criativa releitura da “Melodia Sentimental” de Heitor Villa-Lobos num espetáculo de frevo do genial Antonio Nóbrega. Porque, biologicamente, música e dança não são tão distantes assim…

Para ler mais sobre o assunto:

Lahav, A.; Saltzman, E.; Schlaug, G. Action representation of sound: audiomotor recognition network while listening to newly acquired actions. Journal of Neuroscience, v. 27, p. 308-314, 2007.

Zatorre, R.; Chen, J.L.; Penhume, V.B. When the brain plays music: auditory-motor interactions in music perception and production. Nature Neuroscience, v. 8, p. 547-558, 2007.

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12 comentários Adicione o seu

  1. Nath disse:

    Adorei Vi!
    Ponha um pouco de amor numa ‘neurociência’

    1. Viviane Rocha disse:

      Valeu, Ná!
      Colocarei… muito amor! hahaha!

  2. Meathook disse:

    Hey, Vivi! Parabéns pelo blog, dei uma lida rápida [afinal destou no trabalho ^~], mas já deu pra ter uma boa noção da coisa toda… Interessante pra caralho!

    Beeeeijos!

    1. Viviane Rocha disse:

      Que bom que gostou, Karol!

      Toda semana tem um post novo… É só passar aí!

      Bjo

  3. André Estevez disse:

    Lembro da Marília Velardi comentar que quando pensamos em realizar uma ação, a musculatura relacionada ativa-se antes de realizarmos a ação de fato, o que faz com que muitas vezes, seja necessário apenas pensar numa ação para fortalecermos um músculo ou melhorarmos a coordenação de certa parte do corpo. A educação somática, como no caso de Feldenkrais, trabalha com isso, através de movimentos sutis, ativa-se a parte do córtex cerebral correspondente àquele trecho do corpo que estamos trabalhando, fazendo nossa imagem corporal mais ampla no córtex, melhorando nossa coordenação.
    Interessante saber que o córtex auditivo está relacionado a isso

    1. Viviane Rocha disse:

      É sobre isso mesmo… Pensar sobre uma ação é quase executá-la. Pro cérebro, não faz diferença. Aplicamos isso pra muitas coisas na vida e na nossa profissão!
      Adorei o comentário!
      bjo

  4. Nataly disse:

    Muito, muito interessante o blog! Minha amiga Camila Pécsi indicou, e eu adorei. Parabéns pela iniciativa que não só beneficia a comunidade científica, mas também aos leigos que não tem acesso ao vocabulário rebuscado da área, mas têm curiosidade de entender como funcionam esses mistérios do cérebro.

    Vou colocar na lista de blogs, se vc assim permitir. Aliás, segue o meu: http://memorialdapedra.blogspot.com/

    Que, aliás, teve sua inauguração a pouquíssimo tempo, e só possui um post! rs!

    1. Viviane Rocha disse:

      Obrigada, Nataly!

      Pode colocar na sua lista, claro! Ficarei honrada!
      Passarei pelo seu blog também, com certeza.

  5. Gui Prioli disse:

    Eu tinha lido sobre isso no livro do Oliver Sacks, mas eu sinceramente não sei o quanto eu entendo. Tudo bem a ativação das áreas no cérebro e tal, mas na prática quanto dessa ativação se reflete em um desenvolvimento propriamente dito?

    Estou gostando muito do seu blog, Vivi!
    Beijo!

    1. Viviane Rocha disse:

      Na verdade, Gui, ainda temos muitas coisas a responder. No momento, sabemos que o recrutamento das estruturas é o mesmo na prática, na audição e na imaginação de uma ação. Podemos, a partir disso, supor algumas coisas. Por exemplo, “se eu recruto uma mesma área para estudar e pensar que estou estudando, pode ser que estudar e pensar que estou estudando sejam ações com o mesmo efeito”. No entanto, ainda não foram realizadas pesquisas especificamente para testar essa hipótese. Por enquanto, é a análise de um dado fisiológico sendo interpretada. O próximo passo é elaborar experimentos que possam testar efetivamente a hipótese que eu escrevi. Por exemplo, realizar um experimento em que um grupo estuda e o outro pensa que está estudando e avaliar o desempenho deles antes e depois das sessões de estudo e não estudo. É só um exemplo, mas a pesquisa tem que andar assim, você pega os resultados de algo já realizado e testa outras hipóteses… E é, em parte, o que eu acho fascinante. Nós sempre teremos perguntas a responder.

      Bjo,
      Fico feliz que esteja gostando!

  6. André disse:

    Engraçado ler isso no dia em que justamente pratiquei esse tipo de “estudo”. Logo depois pensei: Será que adianta?. Espero que sim! Tô adorando o blog, Vivi! Beijos!

    1. Viviane Rocha disse:

      Pelo menos, você não se sentiu culpado por não ter efetivamente estudado…
      Que bom que você está gostando! Toda semana tem post novo!
      bjo

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