Ouço… Logo, toco! (ou Interações auditivo-motoras parte 1)

Você já deve ter percebido que a grande maioria das pessoas não consegue ficar parada ao ouvir música. Para não nos mexermos ouvindo música é, muitas vezes, necessário pensar e mandar o corpo ficar quieto. Ao contrário, para nos mexermos ao som de música não é preciso mandar nenhum comando especial dizendo: “mexa-se!”. É, normalmente, uma resposta automática ao som.

Esse tipo de fenômeno que acabei de descrever se encaixa na categoria chamada de “interações auditivo-motoras”. O nome é auto-explicativo. Refere-se às relações entre as partes do cérebro que realizam processamento auditivo e as partes responsáveis pelos comandos motores. Há dois grandes tipos. Falarei sobre um hoje e deixarei o segundo (e mais interessante, confesso!) para a próxima semana…

O primeiro diz respeito à capacidade da música de nos fazer mexer. Melhor dizendo, diz respeito à capacidade humana de sincronizar movimentos com música. Quase todo ser humano é capaz de dançar ouvindo música. Você poderia argumentar: “Mas, eu não tenho coordenação motora e danço mal!” E eu respondo: “Não disse que todos podemos dançar bem, apenas que quase todos somos capazes de balançar os pés ou a cabeça no ritmo de uma música qualquer”.

Essa capacidade, é especialmente importante para os músicos, especialmente os que tocam em grupo (quando escrevo “grupo”, quero dizer duas ou mais pessoas). Para que um músico possa tocar com outro, é preciso que os movimentos de ambos estejam sincronizados. É necessário que quem está tocando saiba entender um estímulo auditivo (o que o colega toca) e, a partir dele, coordenar seu movimento para saber exatamente quando iniciar sua atividade motora. Se não tivéssemos essa capacidade de juntar informações puramente auditivas com informações motoras em nossos cérebros, jamais existiria uma banda de rock sequer. Orquestras então, nem pensar!

Voltando à questão dos movimentos automáticos, uma aplicação muito importante das interações auditivo-motoras se dá no ramo da musicoterapia. Embora não haja muitas pesquisas na área, sabe-se que pacientes com doença de Parkinson em estágios avançados (que não conseguem mais andar, por exemplo) podem não só andar como dançar ao som de música. Isso porque o portador de Parkinson perde os movimentos automáticos, precisando pensar para realizar movimentos que antes, seu sistema nervoso fazia sozinho. No entanto, por algum motivo, os movimentos automáticos relacionados à música não são perdidos nem em estágios avançados da doença.

Deixo um vídeo que mostra uma cacatua dançando! Não, não somos a única espécie que consegue sincronizar som e movimento…

Para ler mais sobre o assunto:

Zatorre, R.; Chen, J.L.; Penhume, V.B. When the brain plays music: auditory-motor interactions in music perception and production. Nature Neuroscience, v. 8, p. 547-558, 2007.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Gui Prioli disse:

    Vivi, gostei muito do seu blog então salvei-o nos meus favoritos!
    Aí lá estava eu bolando um post sobre a juventude de hoje em dia, que veste roupas coloridas, calças skinny, tênis enormes, ouve restart e dança freestep e resolvi dar uma passada no seu blog para ver se tinha alguma atualização. O vídeo da cacatua era exatamente a ilustração de que eu estava precisando. =D
    Brincadeiras à parte, muito interessante o post. Tem coisas que a gente tá tão acostumado que nem para pra pensar que pode ser complexo, tipo conseguir sincronizar com uma música.
    Esperando o próximo!
    Beijo!

    1. Viviane Rocha disse:

      hahaha! Foi exatamente na geração restart que eu me inspirei! hahaha!
      Que bom que gostou!
      Pois é, tem muitas atividades que são mais complexas do que imaginamos e, entendê-las, além de ser interessante, nos ajuda muito até na prática musical…
      Toda semana escrevo um novo! É só aguardar…
      bjo

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