O Canadá não é aqui…

Ano passado estive numa palestra de Isabelle Peretz, da Universidade de Montreal (Canadá). Era a primeira vez que ia a um evento relacionado à neurociência da música e fui sem saber nada sobre o assunto. Lá pelo meio da palestra, Isabelle resolve falar sobre diferenças entre cérebros de músicos e não músicos. Primeiro, eu pensei: “diferenças? Que diferenças?!” Depois, ela começou a falar que os músicos tinham QI mais alto que não músicos, que eram melhores em matemática (!), que tinham mais massa cinzenta. Só sei que o primeiro comentário que me veio à cabeça foi: “só se for no Canadá!”

Brincadeiras à parte, o que eu ouvi na palestra de Isabelle Peretz é verdade. Depois, fui pesquisar artigos sobre o assunto para entender melhor e escrevo aqui um pouco sobre o que encontrei. Pesquisas indicam que cérebros de músicos profissionais e leigos diferem estruturalmente em vários aspectos. O primeiro deles, é bem óbvio: maior volume do córtex auditivo. Se tem alguma parte do corpo que músicos usam muito, independente do instrumento, essa parte é o ouvido. Nada mais natural do que possuir a parte do cérebro que processa sons bem desenvolvida. Depois, vem outra característica facilmente explicada: maior corpo caloso. O corpo caloso é a parte do cérebro que liga os hemisférios direito e esquerdo. Acredito que tenha citado no primeiro post deste blog o fato de a música ativar uma série de diferentes áreas do cérebro. Logo, a conexão entre hemisférios é algo importante para a prática musical.

Agora vem a parte mais complicada de se explicar. QI mais alto? Algumas pesquisas indicam que a prática musical pode estar associada a outros tipos de habilidade, tais como melhora na qualidade da leitura, melhora em raciocínio espacial e matemático. Vale ressaltar que não se sabe (ainda) ao certo se os músicos já nasceram com predisposição a essas alterações estruturais ou se a música desenvolveu melhor certas estruturas dos cérebros de músicos. Cientistas encontraram, também, correlação entre o número de horas estudadas durante a vida e as diferenças cerebrais já citadas.

Gottfried Schlaug e colaboradores, de Harvard, realizaram um experimento em que mediam o volume do corpo caloso de crianças divididas em três grupos: controle, pouca prática e muita prática musical. No início do experimento, todas tinham, aproximadamente, o mesmo volume de corpo caloso. Ao final do experimento, as crianças do grupo controle continuavam com o corpo caloso do mesmo tamanho. As do grupo de pouca prática musical tiveram pequeno aumento de volume dessa estrutura e as do grupo de intensa prática musical tiveram maior aumento de volume do corpo caloso. Evidências como esta sugerem que a prática musical pode “esculpir” nossos cérebros. Ainda não há estudos desse tipo com adultos. Será que é possível mudar o cérebro de um adulto com música? Essa questão fica para outro post…

Deixo esse vídeo cujo título é “Smart musician”. E, convenhamos… O que esse cidadão fez foi bem engenhoso!

Para ler mais sobre o assunto:

Schlaug, G.; Forgeard, M.; Zhu, L.; Norton, A.; Norton, A.; Winner, E. Training-induced Neuroplasticity in Young Children. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1169, p. 205-208, 2009.

Hyde, K.L.; Lerch, J.; Norton, A.; Forgeard, M.; Winner, E.; Evans, A.C.; Schlaug, G. The Effects of Musical Training on Structural Brain Development. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1169, p. 182-186, 2009.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Priscila disse:

    Oi Vivii! To gostando mto do blog e amei esse post!! Muito bom ter acesso a essas informações!! Gostoso de ler! Bjos!

    1. Viviane Rocha disse:

      Que bom que você está gostando! Toda semana tem post novo! bjo

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