E ao final restou o Dó!

Como prometido, escrevo hoje sobre ouvido absoluto. Desde que comecei a estudar neurociência e procurar artigos relacionados à música (minha área original), me espantei com a quantidade de artigos sobre ouvido absoluto. O fato é que os cientistas têm um certo fascínio por essa habilidade e eu não consigo entender porque.

Explico. É claro que é uma habilidade rara, em especial num país como o Brasil. Na China, por exemplo, é bem mais comum. Mas, nem por isso chega a ser algo corriqueiro. Ao mesmo tempo, nunca acreditei que fosse uma capacidade de extrema utilidade. Claro, tem suas vantagens possuir ouvido absoluto… Mas, não tê-lo não torna ninguém incapaz de aprender um instrumento musical e de se profissionalizar. A grande maioria dos músicos profissionais não tem ouvido absoluto. Saber com exatidão a altura das notas sem precisar de um instrumento musical para isso nada tem a ver com musicalidade. Oliver Sacks, no livro “Alucinações Musicais” cita, em um dos capítulos a história de uma família extremamente musical. Nessa família, a filha que possui ouvido absoluto não consegue frasear ou realizar uma escala no violino de maneira musical. É claro, que as duas habilidades (musicalidade e ouvido absoluto) podem andar juntas. Uma não exclui a outra, mas também, ter ouvido absoluto não implica em ser musical.

No início do parágrafo anterior eu citei a China. Explico essa citação. Alguns dos estudos sobre ouvido absoluto buscam a possível correlação entre a prevalência dele e as chamadas línguas tonais*. O mandarin é a mais famosa das línguas tonais. Estudos demonstraram que onde se fala mandarin, a prevalência de ouvido absoluto é maior do que em países com línguas não tonais. No entanto, não se sabe se há relação entre o desenvolvimento do ouvido absoluto e a língua tonal ou se o maior índice de portadores de ouvido absoluto se dá na China devido ao extenso treinamento musical dado por esse país às crianças.

Há teorias de que o ouvido absoluto seja um traço comum em todos os indivíduos, mas seja desenvolvido somente naqueles que são estimulados desde crianças (até aproximadamente 6 anos de idade). Acredito que se fosse assim, teríamos mais crianças com ouvido absoluto…

Como muitas coisas no nosso universo, não há resposta para o porquê dessa habilidade nos seres humanos. Fico por aqui com um trecho do filme “A noviça rebelde” e os VonTrapp aprendendo as notas musicais. Até parece simples… Se você tiver ouvido absoluto!

* línguas tonais: línguas nas quais um mesmo fonema pode ter significados diferentes dependendo de sua altura (som mais grave ou mais agudo). Nessas línguas, o significado depende da variação “melódica” da fala.

Para ler mais sobre o assunto:

Sacks, Oliver. Alucinações Musicais. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Patel, Aniruddh D. Music, language and the brain. New York: Oxford University Press, 2008.

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3 comentários Adicione o seu

  1. paulo germano disse:

    ola Viviane!
    sou acadêmico de música no estado de Santa Catarina e pretendo fazer meu mestrado com algum tema relacionado ao ouvido absoluto. acho fascinante.
    o que voce me aconselha?
    meu email é pgermano83@gmail.com
    grato.
    paulo germano.

    1. Viviane Rocha disse:

      Olá, Paulo!
      Te escrevi um e-mail com alguns esclarecimentos. Mas, caso seja do interesse de alguém, escrevo brevemente por aqui também.
      Há muitas opções de programas de pós graduação em música por aqui. O que se há de saber é que o tema “ouvido absoluto” pode ser encaixado em várias linhas de pesquisa diferentes, dependendo da abordagem que se dá ao tema. Pode se seguir uma linha mais voltada para música, com os subtemas performance e musicologia, por exemplo. E pode-se seguir uma linha mais voltada para a neurociência. Daí, entram experimentos como os que eu costumo descrever por aqui, tudo voltado para a melhor compreensão do funcionamento do cérebro quando ouve e executa música. Se essa é a linha que você deseja seguir, é interessante procurar um grupo de pesquisa com um laboratório equipado e com produção na área de neurociência, além de boa vontade para aceitar músicos, já que ainda não há um programa no Brasil especificamente em neurociência da música. Bom, é isso. Espero ter ajudado. Qualquer dúvida, pode me escrever. Viviane

    2. Eduardo disse:

      Olá Paulo, entre em contato comigo que eu Fui Estudante de música e pesquiso sobre ouvido absoluto a mais de 10 anos. Com ajuda de uma amiga que faz mestrado, consegui resultados surpreendestes, e queria trocar experiências. eduardolimasoares@gmail.com

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