Porque eu sou diferente de você. E é bom que seja assim…

As pessoas são cheias de opinião mesmo. E qual seria a graça se todos fossem iguais? Ganha-se muito com a diversidade. É claro que ela também dificulta um pouco a convivência… Um exemplo disso é o gosto musical. É incontável o número de vezes em que eu perdi a paciência com alguém na rua que “elabora” seu carro como um verdadeiro trio elétrico e fica feliz quando todos podem ouvir sua música. É claro que tem quem não goste quando eu canto uma ária de ópera em meu apartamento. Mas, nem tudo é perfeito nessa vida…

O que interessa aqui é a questão do gosto musical.  Já citei neste blog uma série de artigos sobre porque as pessoas gostam de música, ou porque as pessoas dançam, por exemplo. O fato é que a maioria dos artigos científicos trata da música como algo genérico. Sendo que, na realidade, existe uma série de estilos diferentes de música (e de pessoas!). No entanto, o estudo da música nas neurociências, apesar de ter se expandido muito, ainda é muito recente. Dessa maneira, vai ser difícil encontrar artigos que tratem de temas muito específicos. Pelo menos por enquanto.

E por que eu escrevi tudo isso? Porque, nas últimas semanas encontrei um artigo que trata justamente do gosto musical. Já tratei aqui a respeito do sistema de recompensa no post “Recompensados somos!”. Dessa vez, pesquisadores da University of Bonn, na Alemanha, realizaram estudo semelhante ao que eu citei no post acima. A diferença desse estudo foi a utilização de um questionário sobre características de personalidade. Os pesquisadores convidaram os sujeitos a ouvir músicas escolhidas por eles (a música que mais gostavam e a música que mais odiavam) enquanto eram submetidos a uma sessão de ressonância magnética funcional (fMRI).

Os resultados na audição de música agradável/desagradável foram semelhantes a estudos anteriores, com recrutamento do sistema de recompensa ao ouvir a música de que se gosta.  A diferença desse estudo (como escrevi anteriormente) foi o questionário de personalidade. Os pesquisadores correlacionaram os dados do questionário com os dados da ressonância e encontraram forte correlação entre a dimensão relacionada a transcendência e esquecimento de si mesmo e ativação das áreas do sistema de recompensa. A partir desse dado, pode-se pensar que determinados traços de personalidade podem ter ligação com o quanto uma pessoa sente prazer ao ouvir música. O interessante é que, no experimento citado, as pessoas que tinham maior propensão à transcendência foram as pessoas que tiveram menor recrutamento das áreas de recompensa. Quanto mais propensas a imersão em música, menor era o recrutamento do sistema de recompensa.

Uma explicação possível para esse fenômeno é o fato de pessoas acostumadas a se envolverem por música precisariam de um estímulo mais forte para sentir o mesmo prazer que pessoas que não possuem esse hábito. Um exemplo de algo semelhante está nos estudos sobre expressividade. A pessoa expressiva não necessariamente é a que melhor compreende as expressões dos outros. Pelo contrário, por se expressar com maior intensidade, ela necessita dessa mesma intensidade para compreender ações alheias.

Bom, o fato é que estudos como esse são importantes para se tentar entender as diferentes nuances dos efeitos da música nos nossos cérebros. Quem sabe, um dia, não entenderemos por que cada pessoa gosta de um tipo de música?

Hoje deixo um vídeo que tenta misturar artistas de variadas facetas da música brasileira numa só música. Divirtam-se!

Para ler mais sobre o assunto:

Montag, C., Reuter, M., Axmacher, N. How one’s favorite song activates the reward circuitry of the brain: Personality matters! Behavioural Brain Research, v. 225, p. 511-514, 2011.

Blood, A.J., Zatorre, R.J. Intensely pleasurable responses to music correlate with activity in brain regions implicated in reward and emotion. PNAS, v. 98, p. 11818-11823, 2001.

Menon, V., Levitin, D.J. The rewards of music listening: Response and physiological connectivity of the mesolimbic system. NeuroImage, v. 28, p. 175-184, 2005.

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Sábado na balada…

Como prometido, retomo as atividades do blog nesse novo ano de 2012!

Pelo título, vocês devem ter percebido que o post de hoje trata da música do momento… Sim, eu também vou falar de “Ai, se eu te pego” de Michel Teló. Explico. O fato é que eu nem sabia da existência da música até que uma aluna israelense me disse que até os amigos dela de Israel sabiam! Depois, cansei de ver posts de pessoas que estavam viajando dizendo que a música é uma verdadeira febre em vários países. Eu mesma, feliz da vida, passando Natal no fim do mundo (Ushuaia, Terra do Fogo) tive o desprazer de ouvir uma versão em espanhol da praga. Depois, em Buenos Aires, ainda tive que ouvir de um argentino na rua “Nossa, nossa, assim você me mata”. Inacreditável! A canção me perseguia…

Foi aí que resolvi pensar um pouco a respeito da razão pela qual uma música como aquela poderia ser um sucesso mundial. E, claro, a minha explicação é bem simples e pode ser resumida em uma única palavra: ritmo! Sim, porque a letra e a melodia pouco importam. E você pode até dizer: “Ah, mas existem versões da música em várias línguas diferentes. Se a letra não fosse importante, para que fazer versões?” Essa colocação até faz sentido. No entanto, só há versões porque a original fez tanto sucesso que acabaram achando importante traduzir a mensagem. (Claro, tenho outras considerações a respeito da letra, mas vou me concentrar em um único aspecto por enquanto…)

No entanto, tudo que eu ouço é que as pessoas dançam loucamente a música por aí… E é aí que entra o assunto sobre o qual eu realmente gostaria de falar. Lendo artigos e até para o desenvolvimento da minha própria pesquisa, pude perceber que, na hora de julgar o caráter geral de uma música, pensando-se em algo bem simples como alegria e tristeza, a grande maioria das pessoas utiliza como principal guia o andamento e o ritmo. É isso que faz, por exemplo, num artigo que eu já citei quando tratei das diferenças culturais em música, um povo sem contato com a cultura ocidental acertar (numa proporção bem alta) qual a emoção ligada a cada música. É o que faz, também, pessoas escolherem músicas cujas letras são completamente inapropriadas para suas cerimônias de casamento. Todo cantor que já cantou em algum casamento tem algumas histórias sobre músicas em inglês escolhidas pelos noivos que não têm absolutamente nada a ver com amor, alegria ou união. Mas, a música, sem letra alguma, possui algum significado muito especial para quem escolheu. Nesse caso, a música lenta e aparentemente romântica pode ter uma letra sobre perda ou amor não correspondido, por exemplo.

Quando se pensa em música para dançar, a letra pouco importa. O que importa é poder se mexer. E, nesse quesito, a música de Michel Teló não falha. Se formos pensar em termos funcionais, música e corpo têm uma relação das mais importantes na história da humanidade. Desde rituais de nossos ancestrais, a música sempre esteve fortemente ligada ao corpo e à dança. É só assistir a rituais de povos africanos ou indígenas. Até hoje, a música se mantém fortemente ligada à dança. Nos ballets, musicais ou até sábado… na balada!

E vamos para mais um ano de Neurônios em Pauta! Feliz 2012!

Deixo dois vídeos. O primeiro, soldados do exército de Israel dançando “Ai se eu te pego”. O segundo, dos Barbatuques, que eu acredito ser um grupo que exemplifica bem a relação entre música e corpo.

Para ler mais sobre o assunto:

Mithen, S. The singing neanderthals. The origins of music, language, mind and body. Harvard University Press: Cambridge, 2006.

Fritz, T.; Jentschke, S.; Gosselin, N.; Sammler, D.; Peretz, I.; Turner, R.; Friederici, A.D.; Koelsch, S. Universal recognition of three basic emotions in music. Current Biology, v. 19, p. 1-4, 2009.

Levitin, D. J. The world in six songs. How the musical brain created human nature. Dutton: New York, 2008.

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Figaro, Figaro, Figaro!

Pelo título, vocês já devem saber do que se trata, não? Seguindo o estereótipo do cantor lírico, começamos… Quem já não ouviu a seguinte frase: “Teremos músicos, cantores, atores…”? E que cantor já não se indignou ao ouvi-la e disse: “cantor também é músico! Mais respeito!”? Bom, para colocar mais lenha na fogueira dessa discussão, hoje falo sobre um artigo de 2010 que trata exatamente do cérebro dessa classe tão incompreendida: a dos cantores líricos.

Nesse estudo realizado na Universidade de Tübingen, na Alemanha, os pesquisadores queriam investigar as diferenças entre o funcionamento cerebral ao cantar de cantores líricos e pessoas sem conhecimento musical ou vocal. Para isso, criaram três grupos, um formados por cantores de ópera profissionais, estudantes de canto lírico e pessoas que nunca tinham tido aulas de canto. Pediram para todas elas cantarem pequenos trechos da ária “Caro mio ben” (Fiquem tranquilos, o vídeo que colocarei aí embaixo não será de Caro mio bem!) enquanto era realizada uma sessão de ressonância magnética funcional (fRMI).

A hipótese dos pesquisadores era de que se encontraria diferenças entre grupos, mas que essas seriam diferentes ainda dos estudos com instrumentistas. E, realmente, eles encontraram diferenças significativas entre as pessoas sem treinamento vocal, estudantes de canto e cantores, sendo que essas diferenças se correlacionavam fortemente com o tempo de estudo dos sujeitos. Sendo assim, a diferença era maior entre o cantor profissional e o sujeito sem treinamento e menor entre cantores e estudantes, por exemplo.

Bom, e qual foram as tais diferenças? Os pesquisadores encontraram maior ativação do córtex sensóriomotor. Essa ativação não se encontra em instrumentistas. Mais precisamente, cantores possuem maior recrutamento dessa área, principalmente na porção relacionada à percepção da musculatura da laringe. Até aí, dá para entender bem porque essa área é mais recrutada em cantores. Encontraram também, maior recrutamento do córtex somatosensorial, fortemente relacionada à percepção sensorial. Pelo ato de cantar ser baseado em percepção de sensações e muito pouco em feedback visual (como acontece com instrumentos em que se pode ver teclas, cordas, trastes…), é de se esperar que ocorra esse fenômeno.

Os pesquisadores encontraram outros dados importantes. Cantores recrutam mais áreas do córtex pré frontal dorsolateral ao cantar. Essa área está amplamente relacionada ao planejamento e à memória de trabalho, o que leva a acreditar que o cantor realiza uma intensa atividade de monitoramento do canto, recrutando mais essa área se comparado a pessoas que não possuem treinamento vocal. Além disso, foi encontrado maior recrutamento de regiões do cerebelo, fato que ocorre também em instrumentistas e que estaria relacionado à precisão rítmica e à automatização de movimentos, característica necessária a todo e qualquer músico.

Bom,  com essa pesquisa começamos a entender melhor as diferenças que existem mesmo dentro da classe dos músicos. Devo falar mais sobre esse assunto no futuro. Estão saindo novos artigos bem interessantes sobre o canto e os cantores…

Deixo dois vídeos aproveitando o estereótipo do cantor… O primeiro é do episódio de Simpsons em que Homer se torna cantor de ópera. O único problema é que ele só canta bem deitado. Seria um excelente sujeito para a ressonância magnética!

E um pouquinho de graça:

Para ler mais sobre o assunto:

Kleber, B.; Veit, R.; Birbaumer, N.; Gruzelier, J.; Lotze, M. The brain of opera singers: experience-dependent changes in functional activation. Cerebral Cortex, v. 20, p. 1144-1152, 2010.

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Stress nosso de cada dia

Você já colocou pra tocar uma música bem tranquila num momento em que estava estressado? A música para fins de relaxamento, meditação ou até para dormir não é nenhuma novidade. Vê-se CDs e CDs de “sons relaxantes” como sons de pássaros, de mar, cachoeiras, além de música composta para esse fim mesmo. É claro que se pode entrar numa discussão acerca do que faz um som ser relaxante, se é um parâmetro subjetivo, que varia de pessoa para pessoa ou se é um parâmetro relacionado a determinadas propriedades do som, estrutura musical, etc.

No entanto, meu propósito aqui não é entrar nessa discussão. Pelo menos por enquanto…  O que interessa aqui é que pesquisadores encontraram efeito significativo da tal “música relaxante” nos níveis de cortisol das pessoas. O cortisol é um hormônio produzido no corpo em resposta a fatores estressores. De forma grosseira, quanto maior o nível de cortisol no sangue, maior o stress vivenciado.

E o que os pesquisadores fizeram? Submeteram os sujeitos de pesquisa a situações de stress e os dividiram em dois grupos, medindo os níveis de cortisol na saliva das pessoas antes e depois da situação, acompanhando os sujeitos por 45 minutos após a exposição ao evento estressor. Metade dos sujeitos ouvia “música relaxante”, que para os pesquisadores, se traduziu em trechos de músicas de Enya, Yanni e Vangelis. A outra metade ficava em silêncio.

E o que eles encontraram? Que, de fato, as pessoas expostas a música tinham seus níveis de cortisol menores do que as que ficavam em silêncio, voltando mais rapidamente aos níveis normais de repouso. Tirando a questão acerca dos tipos de música que podemos considerar relaxantes e o quanto isso pode ou não ser um aspecto culturalmente aprendido, o fato de saber que a música tem um efeito direto na produção hormonal é, em si, algo interessante.

Bom, dito isso, deixo um vídeo de canto gregoriano que, ao meu ver, entra na categoria de músicas com fins especificamente voltados para o “relaxamento”, no sentido de buscarem o contato com o divino, ou o estado de meditação…

Para ler mais sobre o assunto:

Khalfa, S.; Dalla Bella, S.; Roy, M.; Peretz, I.; Lupien, S.J. Effects of relaxing music on salivary cortisol level after psychological stress. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 999, p. 374-376, 2003.

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Idas e vindas

Após uma pausa, o blog retorna nesta semana. Já adianto que, a partir desse semestre, os posts passam a ser quinzenais e não semanais, uma vez que a minha própria pesquisa deve entrar em processo de coleta de dados. (Não se preocupem, pois o meu trabalho deve ser assunto de algum post mais adiante!)

Aproveitando o período de retorno de férias, resolvi escrever sobre algo que sempre me intrigou. O tema de hoje foi, também, sugestão de um leitor. Então, aproveito para convidar quem quiser a sugerir temas para o blog. Na medida do possível, tentarei atender aos pedidos. Passado esse parêntese, vamos ao assunto. Imagine que você está andando por uma rua. Passando por uma determinada loja, você escuta uma música que não ouvia há anos. Uma música da sua infância, por exemplo. De repente, o ano não é mais 2011. É 1990 ou 1980 e uma porção de diferentes imagens, cheiros e sabores daquela época vêm à tona. Isso já deve ter acontecido com você. Uma música faz lembrar uma época, que faz lembrar uma cena, que faz lembrar uma comida e por aí vai.

Obviamente, essa capacidade de se transportar a outras circunstâncias (vividas ou não) não é algo exclusivamente causado pela música. No entanto, não deixa de ser curioso como, com a música, parece que imediatamente, sem mesmo querer, somos tão rapidamente transportados pelos fatos das nossas memórias. Memória. Essa seria a palavra chave nessa história. Como será que ela funciona? Será que a memória para música (já falei sobre esse assunto antes*) é especial? Sabe-se, por pesquisas com pacientes com Alzheimer que a memória para música é preservada mesmo em estágios avançados da doença. Será que isso significa que esse tipo de memória é especial ou é guardado de maneira também especial ou única?

Outro ponto interessante é como um estímulo auditivo nos remete a uma imagem (estímulo visual) ou a um cheiro, por exemplo. Aqui neste blog, já escrevi sobre as interações auditivo motoras** e sobre sinestesia***, que seria uma habilidade exagerada de misturar estímulos de naturezas diferentes. Mas, o que acontece é que mesmo as pessoas que não possuem essa habilidade (sinestesia) são capazes de realizar essa mistura no processamento de estímulos. Assim como se dá a interação entre estímulo auditivo e movimento que contagia até cacatuas****.

Bom, o intuito desse post não era responder a muitas perguntas, era deixá-las para serem respondidas mais tarde… O assunto é complexo e gera mais indagações do que respostas. Que venha mais um semestre!

Deixo um vídeo que diz respeito a uma conversa repleta de lembranças e música. De um grupo que absolutamente adoro, Les Luthiers.

* ver post “Dois hambúrgueres, alface…”

** ver posts “Ouço… Logo, toco!” e “Será que eu posso não estudar hoje?”

*** ver post “Música colorida”

**** ver post “Ouço… Logo, toco!”

Para ler mais sobre o assunto:

Baird, A.; Samson, S. Memory for music in Alzheimer’s disease: unforgettable? Neuropsychology Review, 19, p. 85-101, 2009.

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Tal pai, tal filho!

Bom, hoje resolvi tomar um pequeno desvio da neurociência e falar de genética (!). Pois é, muito se especula a respeito da origem das habilidades musicais. Escrevo sempre sobre questões relacionadas a aspectos evolutivos da música. No entanto, há poucos estudos sobre o quanto as habilidades musicais podem ser hereditárias.

Tem-se muitos exemplos de famílias com inúmeros músicos. O exemplo clássico é a família Bach. Tudo bem que Johann Sebastian Bach teve muitos filhos e a probabilidade de algum deles se tornar músico não devia ser muito pequena mesmo. Hoje em dia, há muitos casos de músicos filhos de músicos. Mais até do que se imagina. (Quem quiser testar seus conhecimentos de pais e filhos da música popular pode entrar no site a seguir. Tem um quiz com 23 pares de pais e filhos músicos http://www.sporcle.com/games/Matthewconte/fatherandsonmusicians )

Escrevi tudo isso para falar sobre um artigo que li essa semana. É um artigo de 2009, trabalho conjunto da Universidade de Helsinki e da Sibelius Academy, na Finlândia. Os pesquisadores analisaram material genético de 19 famílias finlandesas, num total de 343 pessoas. Além disso, aplicaram testes de habilidades musicais e de criatividade musical em todos os integrantes das famílias. O que eles encontraram de interessante foi uma forte correlação entre o gene AVPR1A e habilidades musicais. Esse gene é comumente associado a habilidades sociais e ao altruísmo, o que sugere forte correlação entre música e relações sociais humanas, reforçando a idéia de que a música pode ter desempenhado papel importante no desenvolvimento da vida em sociedade…

Muito ainda precisa ser estudado. E é claro que as habilidades musicais não se resumem a um único gene e nem somente a aspectos genéticos. Mas, o que os estudos indicam é que há maior probabilidade de seu filho ter aptidão para música se você a tem.

Hoje deixo um vídeo dos King’s Singers. Escolhi esse vídeo por causa da confusão com os nomes da família Bach logo no comecinho. Mas, vale a pena assistir até o final…

 

Para ler mais sobre o assunto:

Ukkola, L.T.; Onkamo, P.; Raijas, P.; Karma, K.; Järvela, I. Musical Aptitude Is Associated with AVPR1A-Haplotypes. PLoSONE: e5534. doi: 10.1371/journal.pone.0005534, 2009.

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O fim do absolutismo…

Não, o blog não mudou de perfil e se transformou em um blog sobre história! Decidi retomar o assunto do ouvido absoluto, depois de ter lido mais a fundo um trecho do livro”The singing Neanderthals” de Steven Mithen. Muito se especula acerca do ouvido absoluto. Há pessoas que dizem que todos o têm ao nascer e alguns o perdem. Há pessoas que dizem que o ouvido absoluto tem relação com falar uma língua tonal. Há pessoas que acreditam que ele seja utilíssimo. Outras, que ele não passa de alguma habilidade que foi importante em algum momento evolutivo do homem, mas que deixou de ser essencial.

A verdade é que os pesquisadores ainda não chegaram a um consenso sobre o tema. Mas, há muitas especulações. E ciência, antes de comprovar fatos, é feita de especulações! E eu, particularmente, gosto desse lado especulativo da ciência. Só não podemos nos valer dele por muito tempo, mas não faz mal especular de vez em quando. Bom, é sobre uma dessas visões que escrevo hoje.

Os pesquisadores Jenny Saffran e Gregory Griepentrog, da Universidade de Michigan, conduziram em 2001 um estudo muito interessante com bebês de 8 meses de idade e adultos. Tanto bebês quanto adultos ouviam estímulos de palavras e partes de palavras. Passavam por uma fase de familiarização com os estímulos para, depois, passar por um teste de reconhecimento dos mesmos. Os mesmo estímulos eram posteriormente apresentados com mesma altura e com alturas diferentes. A descoberta interessante desse estudo foi o fato de bebês reconhecerem somente as palavras que foram apresentadas no mesmo tom da fase de familiarização. O mesmo não aconteceu para adultos.

Esses resultados indicam que os bebês, na fase em que ainda não adquiriram linguagem, se valem do ouvido absoluto para compreender mensagens acústicas. Isso indica que, provavelmente essa seja uma característica comum a todas as pessoas ao nascer, mas que seria perdida durante a vida. O que se acredita é que, possivelmente, pessoas que são estimuladas com música desde a infância, tenham a capacidade de preservar essa habilidade, já que a utilizam mais do que pessoas sem treinamento musical formal.

Além disso, o ouvido absoluto complicaria a aquisição da linguagem, uma vez que quem se valesse dele para compreender a fala poderia compreender a mesma frase falada por um homem e uma mulher como frases diferentes, por causa da variação de altura. Dessa forma, perder o ouvido absoluto poderia ser útil para o melhor desenvolvimento da linguagem e só seriam capazes de mantê-lo pessoas que fazem uso dessa habilidade com frequência. Claro que essa teoria não responde todas as perguntas acerca do tema. Ainda há que se estudar muito para melhor compreender essa capacidade.

Hoje deixo um vídeo do Bobby McFerrin dando uma pequena aula de canto. Assistindo a esse vídeo, fiquei pensando como seria dar uma aula de canto sem se valer da linguagem… Ainda acredito que música e linguagem têm mais em comum do que se imagina. No futuro saberemos…

Para ler mais sobre o assunto:

Saffran, J.R.; Griepentrog, G.J. Absolute pitch in infant auditory learning: evidence for developmental reorganization. Developmental Psychology, 37, p. 74-85, 2001.

Mithen, S. The singing neanderthals. The origins of music, language, mind and body. Harvard University Press: Cambridge, 2006.

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Isso me dá arrepios!

Pois é, já tratei aqui do recrutamento do sistema de recompensa em resposta a estímulos prazerosos, dentre eles, a música*. Já falei também, que acredito que a característica musical mais cara ao ser humano seja sua capacidade de evocar emoções nos ouvintes. As pesquisas com música e emoção estão em pleno desenvolvimento e ainda há muito a ser estudado. Especialmente porque ainda há muitas barreiras metodológicas para a realização de estudos com emoção no âmbito do laboratório.

Muitas contribuições ao estudo com emoções têm sido fornecidas por meio da utilização de medidas psicofisiológicas, tais como frequência cardíaca e sua variação, frequência respiratória e sua variação, pressão arterial e envolvimento da musculatura facial (como já citado neste blog**), por exemplo. Essas medidas avaliam alterações diretas no funcionamento do corpo, que podem ser relacionadas à atividade emocional. Aliadas a outros tipos de medidas, tais como medidas de neuroimagem ou eletrofisiologia cerebral, podem auxiliar na compreensão do funcionamento do cérebro em situações de emoção intensa.

Um tipo de medida muito interessante é a de condutância da pele. Por meio dessa avaliação, pode-se avaliar aspectos eletrofisiológicos da pele. Em estudo sobre percepção de trechos musicais relacionados a emoções, Stéphanie Khalfa e colaboradores da Universidade de Montreal avaliaram respostas de condutância da pele enquanto sujeitos ouviam quatro tipos de música, relacionadas a alegria, tristeza, medo e calma. Os pesquisadores encontraram medidas semelhantes para medo e alegria, assim como para tristeza e calma, indicando que a medida de condutância da pele está mais relacionada ao grau de excitação que o estímulo provoca do que ao caráter da emoção evocada.

O que acontece quando se vivencia uma experiência emocional intensa é o que muitos chamam de “arrepios”, que podem ser avaliados por meio da condutância da pele. Quem já não ouviu alguém dizer que se arrepiou ouvindo determinada música ou intérprete. Particularmente, para mim, o “arrepio” está diretamente relacionado a uma excelente interpretação musical, que carrega uma carga emocional forte. Para você que está lendo, pode vir em resposta a outro tipo de estímulo. No entanto, o “arrepio” é um tipo de resposta natural do corpo que indica o acontecimento de uma experiência forte emocional. A não ser que você esteja sentindo frio… Aí, a razão do arrepio é outra.

Bom, hoje deixo dois vídeos que ilustram um pouco do que escrevi. São duas interpretações da mesma ária. A primeira me é emocionalmente neutra, enquanto a segunda me arrepia do começo ao fim…

*ver post “Recompensados somos”

**ver post “Smile!”

Para ler mais sobre o assunto:

Khalfa, S.; Peretz, I.; Blondin, J.P.; Manon, R. Event-related skin conductance responses to musical emotions in humans. Neuroscience Letters, v. 328, p. 145-149, 2002.

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Música colorida

Não, esse não é um post sobre a banda Restart! A “música colorida” do título diz respeito a uma habilidade muito peculiar que acomete determinadas pessoas. Não é nenhum tipo de síndrome e muitas das pessoas que possuem essa capacidade de percepção diferente das outras pessoas nem sabem que a tem. Por incrível que pareça, é uma habilidade relativamente comum. Estima-se que haja cerca de uma pessoa em cada 2000 com essa habilidade, ou talvez mais.

Do que estou falando? Da sinestesia. Não, não é da figura de linguagem… A sinestesia é a capacidade de unir (ou seria misturar?) sentidos. Foi descrita no século XIX por Francis Galton, que encontrou pessoas capazes de ver números com cores específicas, ou associar notas musicais a cores. Para os sinestésicos, o número cinco é sempre azul, a letra “A” sempre verde e o tom ré maior sempre amarelo. Para deixar bem claro, esses são exemplos. Não quer dizer que todas as pessoas com sinestesia vêem números 5 azuis!

Todos somos capazes de associar sentidos, atribuindo texturas a cores, sabores a sons e assim por diante. No entanto, os sinestésicos que atribuem cores a números, por exemplo, sempre associam os mesmos números às mesmas cores. De acordo com o pesquisador Vilayanur Ramachandran, da Universidade da California, um “teste” comum para sinestesia seria a figura abaixo.

A maioria das pessoas demora muito para identificar os números 2 na figura em preto e branco. No entanto, os sinestésicos, por associarem cores a números, facilmente encontrariam o desenho em forma de triângulo gerado pelos números 2 na figura. Você encontrou?

Atribuir cores a números não são as únicas habilidades das pessoas com sinestesia. Muitas delas são capazes de atribuir cores a notas musicais ou tonalidades. Para alguém com essa habilidade, o ré maior será sempre amarelo, o mi menor verde, etc. Muitos dos treinos de pessoas com ouvido absoluto se baseiam nas cores associadas a notas. Não há estudos sobre isso, mas, provavelmente, a incidência de ouvido absoluto em pessoas com sinestesia deve ser muito mais alta do que na população geral. Por meio das associações de cores e sons, há muito maior probabilidade da utilização da memória para tons de maneira bem sucedida.

Hoje deixo um vídeo que mistura música, cores e formas…

Para ler mais sobre o assunto:

Ramachandran, V.S. A Brief Tour of Human Consciousness. From impostor poodles to purple numbers. New York: Pi Press, 2004.

Sacks, O. Alucinações musicais. Relatos sobre música e cérebro. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

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Savants!

Vocês se lembram do Rain Man? É um filme bem antigo, mas mostra as habilidades peculiares do personagem principal. O importante é lembrar que Raymond, o personagem de Dustin Hoffman tinha habilidades extraordinárias de cálculo e memória. Raymond era autista e tinha as chamadas habilidades de savant. O termo vem de idiot savant, que significa idiota sábio. Com o tempo, foi-se utilizando somente savant para denomimar esse tipo de pessoa que tem atraso cognitivo, mas apresenta habilidades extraordinárias.

Muito se tem estudado acerca das habilidades de savant. Especialmente na população autista. Há habilidades diversas nessa população. Savants com capacidades de cálculo incríveis, capazes de dizer o dia da semana de qualquer data, sem esforço, por exemplo. Há também, os savants com habilidades artísticas. Muitos conseguem desenhar uma paisagem com imenso detalhe olhando para ela apenas uma vez.

Há também os savants musicais. E aí, não são apenas autistas que podem ter boas capacidades musicais, mas também pessoas com síndrome de Williams (que eu citei no post “Gloria”). Os savants musicais são capazes de tocar uma peça de memória corretamente, sem tê-la escutado mais de uma vez. As habilidades podem variar. Acreditava-se que os savants eram capazes de somente reproduzir fielmente uma peça musical, devido a sua incrível memória. Muitos possuem, também, ouvido absoluto. No entanto, há savants que, além de reproduzir muito bem uma peça, são capazes de improvisar, utilizando de forma correta as regras musicais relacionadas à forma e estrutura da música.

Hoje, acredita-se que os savants musicais têm compreensão das regras de harmonia e forma e que conseguem, de alguma maneira, absorvê-las de forma mais rápida do que as pessoas normais. Suas habilidades estariam relacionadas à memória, mas também a um certo grau de compreensão de regras. Muitas performances dessas pessoas podem ser expressivas, no entanto, a compreensão das emoções envolvidas no fazer musical não estão presentes. E isso vale tanto para autistas quanto para pessoas com síndrome de Williams, já que ambas as síndromes apresentam déficits no processamento de emoções, embora de maneiras diferentes.

Hoje deixo um vídeo de uma entrevista com um rapaz de então 13 anos e sua mãe. O rapaz toca Beethoven e depois muda os estilos musicais…

Para ler mais sobre o assunto:

Mithen, S. The singing neanderthals. The origins of music, language, mind and body.Harvard University Press: Cambridge, 2006.

Martens, M.A., Reutens, D.C., Wilson, S.J. Auditory cortical volumes and musical ability in Williams syndrome. Neuropsychologia, v. 48, p. 2602-2609, 2010.

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